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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

VI - O SEGREDO E A CIÊNCIA

             No mesmo período da Reforma, no século XVI, um outro movimento iniciou-se silencioso, tendo como precursor ninguém mais que o italiano Leonardo Da Vinci (1452-1519), cujos interesses intelectuais ultrapassavam em muito a expressão artística de suas pinturas, enveredando pelos campos até então ocultos da ciência. Tal movimento passa a tomar forma e adquirir conteúdo com o estudioso italiano Galileu Galilei (1564-1642), que estabeleceu o estudo experimental cientifico na física, construiu o primeiro microscópio e a luneta. Todavia, quando Galileu Galilei passou a defender as idéias de Nicolau Copérnico (1473-1543) - o estudioso polonês de astronomia que teorizou a rotação dos planetas sobre si mesmos e destes em torno do sol -, Galileu acabou sendo perseguido por contrariar a Igreja de Romana em seu dogma bíblico da criação divina. Acusado de herege foi obrigado a abjurar suas crenças cientificas perante a Inquisição (1633). Mas, a chama da inspiração científica se ascendera com Galileu para nunca mais ser apagada.


            É neste início do florescer científico europeu que um irmão da Ordem dos Rosacruzes descobre, em 1604, a câmara onde estava enterrado Christian Rosenkreuz. O cadáver causou assombro, porque estava no mais perfeito estado de conservação, após o confinamento de 120 anos. Na câmara, segundo a lenda, também foram encontrados aparelhos ou máquinas que não eram concebíveis dentro do conhecimento ciêntifico da época em que ele morreu, descritos como lâmpadas-perpétuas, registradores de sons, registrador de imagens e outros[1]. Sem maiores provas documentais da real existência de Christian Rosenkreuz, ganha força à impressão de que tais relatos não passam de uma lenda. Um engodo para ocultar sob um pseudônimo o tido pela tradição como idealizador da Ordem dos Rosacruzes; o barão de Verulam, o filósofo e chanceler da Inglaterra no tempo de Jaime I, o famoso inglês Francis Bacon (1561-1626), que foi entusiasta do método experimental cientifico, fixou a pesquisa como princípio de autoridade e o método dedutivo, além de ter estabelecido a classificação metódica das ciências.

            O primeiro documento dos rosacruzes foi Fama Fraternitatis Rosae Crucis de 1614, seguido de Confessio Fraternitatis de 1615 e The Chymical Wedding of Christian Rosenkreutz de 1616, onde aparece pela primeira vez o nome do legendário fundador da ordem, e foi escrito pelo pastor luterano John Valentin Andreae[2]. Chymical Wedding é um conto romântico de cavalaria, ao gênero do Santo Graal, e repleto de significados ocultos, falando da restauração da herança usurpada, em clara referência à Igreja de Roma. Estes documentos anunciavam um tempo de Iluminação e libertação, quando os segredos herméticos universais seriam revelados.
           
             Os rosacruzes defendiam a liberdade, a fraternidade e a igualdade e se diziam desafiadores da tirania e qualquer forma de opressão. Com a Reforma eles se tornam os responsáveis pela criação de uma nova espiritualidade, porquanto a descoberta de que a doutrina da Igreja de Roma era baseada em fraude e que distorcera a história de Jesus leva muitos cristãos em busca da verdade que lhe fora até então negada. 

            Conta-se que num dia de 1622 os parisienses acordaram com a cidade cheia de cartazes e dos inovadores “panfletos impressos”, utilizados para divulgar idéias e eventos sociais, onde se poderia ler: “Nós, delegados da agremiação principal dos Irmãos da Rosa-cruzes, fazemos uma estada visível e invisível nesta cidade, pela graça do Altíssimo em direção ao qual se dirige o coração dos Justos, a fim de libertar os homens, nossos semelhantes, do erro mortal” [3]. 

            O caso causou muita celeuma e foi considerado por alguns uma brincadeira, para outros uma manifestação da ordem afamada por conhecer o prolongamento da vida, a transmutações dos metais (alquimia), os conhecimentos do que se passa em lugares distantes e da descoberta de objetos que estejam escondidos. Mas, em verdade os rosacruzes que possuíam o princípio a humildade, a justiça, a verdade e a caridade, também eram iniciados nos conhecimentos da cura de todas as doenças do corpo e da alma. A rosa para os rosacruzes significava o segredo ligado à evolução e a cruz a dificuldade ligada ao sofrimento da vida ou karma. A perseguição puritana e a Inquisição as atividades dos rosacruzes obrigaria a fraternidade a caminhar nas sombras.

            A sociedade secreta sabidamente oferecia suporte às pessoas esclarecidas, que por terem um estado de consciência intelectual elevado, buscavam correspondentes para troca de idéias com outras pessoas, com semelhantes conhecimentos, com os quais o diálogo fosse possível. Acreditava-se que uma sociedade secreta internacional de pessoas capazes de identificarem problemas e dispostas a oferecerem soluções sem intervir diretamente nas situações, teria possibilidade de passar desapercebida, se limitassem suas intervenções a casos especiais, permitindo assim a condução dos eventos conforme os interesses pré-estabelecidos pelos membros da sociedade em questão.

            É possível encontrar uma lógica aristotélica que permeia as sociedades secretas ao considerar-se que só pode existir igualdade entre iguais e desigualdade entre desiguais. De certo, as diferenças dos níveis de conhecimento entre os indivíduos num determinado assunto, compromete um profícuo exercício intelectual que conduza à evolução das idéias em harmonia, sem a perda de um precioso tempo em explicações pertinentes para poder, só então, haver uma provável troca de idéias. É por este motivo que a sociedade moderna criou tantas sociedades de especializadas, tais como a Sociedade de Letras, Sociedade Histórica e Geográfica, Sociedade Ciêntifica, Sociedade Médica e tantas outras. De uma maneira curiosa cada sociedade também vai ter uma linguagem própria para expressar seu conhecimento específico e especializado, o que torna de difícil compreensão para os leigos em determinado assunto. Do mesmo modo se dará no que diz respeito às sociedades secretas nascentes no século XVII, que terão este aspecto diferencial ainda mais acentuado.

            Os rosacruzes graças ao fato de se manterem na obscuridade conseguiram formar uma resistente rede internacional, a qual contou com o franco apoio dos protestantes luteranos, chegando a exercer notável influência na Inglaterra, durante a segunda metade do século XVII, onde as fraternidades inglesas e escocesas, oriundas da Ordem dos Templários conservavam desde o século XIV antigos documentos de geometria e outras ciências provenientes da Palestina, do Egito e da Babilônia. Os primeiros sinais da origem da mais afamada sociedade secreta, a Freemasonary (Maçonaria), data de 1640 durante o reinado de Carlos I, da Inglaterra, quando foi fundada a Royal Society (Sociedade Real), em 1645, que também ficou conhecida pelo nome de “Universidade Invisível”, que reunia estudiosos de filosofia, astronomia, física, arquitetura, química e outros ensinamentos avançados, mas o breve período republicano obrigou seus membros a obscuridade.

             Os pedreiros-livres (free-masons) encontrariam um clima favorável ao desenvolvimento de suas atividades, durante o reinado de Carlos II, que estando exilado na França, sob a proteção de seu primo Luís XIV[4] , se tornou um apreciador do desenvolvimento dos conhecimentos científicos dos rosacruzes. Logo que assumiu o trono, Carlos II reativou a Royal Society (Sociedade Real), em 1660, e deu-lhe por meta entender os milagres do grande arquiteto do Universo. Dois anos depois de sua fundação a Royal Society contava com um notável número de cientistas e estudiosos das mais diversas áreas do conhecimento, sendo que grande parte de seus membros eram grandes mestres maçons e rosacruzes, quando em 1662, por decreto real, a Royal Society se tornou uma instituição formal[5]. A Royal Society foi a primeira assembléia criada em torno da ciência, e teve franca participação no movimento filosófico Iluminista e na formação dos fundamentos que dariam origem à sociedade industrial dos séculos XIX, XX e XXI.

            A Ordem dos Templários tivera o inicio da sua ligação com a Escócia com o casamento de Hughes de Payens (1070-1136), um dos membros fundadores da ordem, com a francesa Catarina St.Clair, cuja família construiu o primeiro templo da ordem na Escócia (1130), e onde passaram a ter muitas propriedades. Na batalha de Roslin (1303), nas proximidades de Edimburgo, Roberto Bruce teve o socorro dos cavaleiros templários sob as ordens do Grão-Mestre dos templários na Escócia, William St.Clair, cujo clã familiar se fixara na região. Quando Robert Bruce se tornou rei da Escócia, os templários o seguiram no poder, e William St. Clair adotou o nome alternativo de Sinclair ao receber os títulos de Lord de Shetland e Barão de Roslin. Foi seu descendente Henry Sinclair (1345-1400)[6] que fez a exploração da Groenlândia e América do Norte (Nova Escócia, Ilha de Rhodes e Massachusetts), em torno do ano de 1398, vindo a receber o título de Conde de Orkeney por serviços prestados à realeza escocesa.  O rei Jaime II Steward[7], entregou a seu neto, William Sinclair, o posto de Patrão Hereditário dos Pedreiros da Escócia, uma espécie de sociedade que reunia os construtores de igrejas, castelos e outras obras de engenharia. Em 1441, William Sinclair deu inicio a construção de uma igreja polemica que reuniria todos os símbolos dos místicos e conhecimentos adquiridos pela Ordem dos Templários, com o objetivo salvaguardá-los num lugar seguro sob cuidado da família Sinclair, lugar este que nos dias atuais atrai a todos os curiosos de assuntos ocultos e místicos, a famosa Capela Rosslyn.

            William Sinclair desenhou e construiu a Capela Rosslyn, mas faleceu, em 1484, sem terminar a sua obra, findada por seu filho Oliver em 1486. A capela foi construída com centenas e centenas de pedras talhadas para as paredes e teto, com representações de cenas bíblicas, iconografias dos templários, símbolos e instrumentos geométricos (compasso e esquadro), espadas, colheres de pedreiros, símbolos judaicos, esotéricos e muitas mensagens cristãs. Podem-se encontrar traços islâmicos e representações profanas, tais como a serpente e o dragão. Por todo lugar são vistas as representações dos ciclos da vida e da força da natureza. Em todos os pilares e arcos se vêem gravados: frutas, ervas, folhas, especiarias, flores, vinhas e todas as plantas de um jardim paradisíaco. Cada pedra entalhada tem um propósito, e o qual está relacionado com o próximo propósito esculpido, criando um senso de mágica harmonia[8].

            Certamente William Sinclair não construiu a Capela com o propósito das inúmeras histórias e lendas míticas que lha são atribuídas, claramente ela ultrapassava o propósito sacro cristão da época, do mesmo modo que a Igreja do Templo (Novo Templo) da Ordem dos Templários, em Londres. O próprio nome da capela Rosslyn difere da grafia Roslin do nome da localidade nas montanhas de Pentland onde se encontra a capela. Como já vimos, os nomes podem ter outros significados além do que aparentam, neste caso Rosslyn reúne duas palavras inglesas: ros, que significa rosa, e slyn, que significa artifício, engano, logro, embuste e outros sinônimos, ou seja, a mensagem seria que “o segredo é um engano” ou “segredo enganoso”.  Pode assim significar algo que apesar de não ser do conhecimento geral, não deve ser considerado realmente oculto. Um artifício usado comumente naquela época para afastar as pessoas de uma revelação óbvia e evidente.

            Desde os primórdios dos tempos, muitas foram às formas utilizadas para desviar a atenção dos mais ignorantes para que não “pensassem” por si mesmos e ficassem alheios à realidade; pois pensar é refletir, é questionar o status quo.  Só quem pensa desta maneira pode se dizer plenamente consciente de si e do mundo que o rodeia. O aceite inquestionável do status quo em todos aspectos permitiu sempre que os verdadeiramente pensantes viessem a adquirir o domínio do destino dos alienados. Um dos meios mais comuns foi, e sempre será, o misticismo religioso. Pode-se ponderar que a parafernália de alegoria mística da Capela de Rosslyn, que atrai os estudiosos de todo mundo constitui apenas uma fantástica e bem elaborada “fachada”, para distrair a atenção daqueles que a visitam, no objetivo que seu verdadeiro e transparente significado passe desapercebido.

            Consta em relatos, que no cemitério próximo à capela é possível ver muitas sepulturas antigas, sendo a lápide mais recente de 1621. Em algumas delas aparece o Arco Real (Royal Arch), que simboliza um altíssimo grau de perfeição de quem por ele fosse honrado. Em um passado mais distante o Arco Real guardava o significado de um memento mori (Lat. “Lembres que morrerás”), para conter o eventual abuso da vaidade a que estão sujeitos os que se realçaram por suas singulares qualidades. Em alguns desses arcos estão gravados a colher e a pá símbolos dos pedreiros livres, em outros a caveira com os ossos cruzados, o símbolo da ressurreição utilizado pelos templários na bandeira de batalha. Só no século XIX a maçonaria, então uma sociedade secreta, adotaria o Grau do Arco Real (Royal Arch Degree), tendo gravado nele o Selo de Salomão (dois triângulos entrelaçados dentro de um circulo dourado), cujo significado maçônico é emblemado com os dizeres: “Somente a Chave está faltando. Se tu puderes compreender estas coisas, tu sabes bastante” [9].
            
           Para se descobrir uma “charada” ou um problema é preciso utilizar-se de uma “chave”, que é mencionada no emblema maçônico. A famosa pedra Roseta[10] foi a “chave” que permitiu a Champollion decifrar o hieróglifo, isto porque continha caracteres inscritos em grego e hieróglifo simplificado. Outro exemplo do uso de uma “chave” é o enigma que se encontra nestas palavras de Jesus: “Nunca lestes nas Escrituras: A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; Istoé obra do Senhor, e é admirável aos nossos olhos” [11]. Tantas já foram às interpretações destas palavras sem jamais nenhuma se aproximar da réles realidade. Jesus se referia às palavras escritas por Davi no Salmo 117:22, onde está escrito: “A pedra rejeitada pelos arquitetos. Tornou-se pedra angular”. Ora, Davi também não se referia a nada muito enigmático, apenas à cidade de Jerusalém, que fora considerada impura e fora desprezada pelos reis hebreus seus antecessores, chamados de arquitetos, no sentido de planejadores do reino hebreu. Jerusalém é assim a “chave” desta intrigante passagem.  David conquistou Jerusalém (X a.C.) dos jebuceus, ocupou a fortaleza que estava localizada numa colina chamada Sião e chamou Jerusalém de Cidade de Davi, e fez dela a capital do reino hebreu. Jerusalém ganhou um luxuoso aspecto com seu filho rei Salomão[12], refletindo a grandeza do reino de Israel, fato que para os hebreus só foi possível em razão da sabedoria divina advinda do Reino de Deus. Assim, por “pedra angular” entende-se a pedra de alicerce sobre a qual algo se ergue. 


            Os maçons no século XVIII passaram a usar como sinal para reconhecimento entre si os três pontos colocados de forma angular, como o sinal ser visualizado na figura a seguir. Como se pode observar o processo de criação do Selo de Salomão é de três pontos colocados de maneira a representar um triângulo, como o sinal maçônico.

            Os pontos ligados formam um triângulo, que num processo de expansão origina seis triângulos de igual tamanho, que constituem um pentágono. Nova expansão em múltiplo de três têm-se mais três triângulos de igual tamanho aos anteriores, originando um triângulo, igual ao primeiro formado, mas maior. Outra expansão com mais três triângulos e teremos dois triângulos entrelaçados, formando a famosa estrela de Davi.

             O processo de expansão é contínuo como demonstra o circulo em volta da estrela do Selo de Salomão, assim os pontos representam as linhas que dariam origem a um novo pentágono, igual ao primordial, mas muito maior.

            Na Antiguidade, a flor de Lótus era o símbolo do processo gerador de vida da Natureza e da ressurreição, pois as sementes da flor de Lótus guardavam todas as características na aparência da planta em estado adulto. Do mesmo modo o Selo de Salomão busca representar este processo, o qual se repete de maneira geométrica infinitamente ao adotar-se por base o triângulo, que constitui a pedra angular deste processo.

             Por este motivo o Selo de Salomão representa algo muito além da magia que lhe desejam atribuir, ele representa a mais alta, pura e simples sabedoria da vida. Uma sabedoria que viria a ser comprovada com o uso dos sofisticados instrumentos, após quase três milênios. O Selo de Salomão nos fornece a Chave para a compreensão do verdadeiro significado da Capela Rosslyn, onde o selo gravado no solo se faz símbolo da energia contínua da genetriz animadora da vida, da qual emana toda a criatividade da Natureza, inclusive a de concepção humana, que se encontra expressa nas paredes e no teto da capela.

Sobre este fantasioso passado de idéias metafísicas expresso em metáforas, a realidade da ciência moderna veio a se impor de maneira inquestionável. Não existe curiosidade maior e expressiva coincidência que o Instituto Roslin[14] ter desenvolvido a pesquisa de clonagem a partir de uma célula adulta exatamente nas proximidades da capela Rosslyn.

            O primeiro espécime mamífero clonado foi apresentado ao mundo em 1997, uma ovelha chamada Dolly (1996-2003), na foto com seu primeiro filho, Bonnie.

           
           No passado a Ordem dos Templários utilizou a genetriz do Selo de Salomão para formar uma notável rede de influência baseada na tríade fraterna, após o século XVIII, as redes maçônicas e rosacruzes usariam os mesmo método, promovendo a mais notável e dramática revolução intelectual de todos os tempos, capaz de realmente transformar a face do mundo, a chamada: Revolução das Luzes ou Iluminismo.  Um movimento acompanhado pelo progresso ciêntifico e tecnológico, que escancarou as portas conhecimento e transformou o atraso do passado em um avanço colossal, que elevou o ser humano a uma situação jamais imaginada por seus ancestrais: um deus, capaz de ter o domínio sobre a maior parte da Natureza.  


[1]  Louis Pauwels e Jacques Bergier – “Le matin de Magiciens”.
                                                             “O despertar dos Mágicos”. – Difusão Européia do Livro – São Paulo – 1968 - pg. 52.              
[2] The books by Gilles C H Nullens.htm
[3] Louis Pauwels e Jacques Bergier – “Le Matin des Magiciens” – Librairie Gallimard, Paris – 1968.
                                                            “O Despertar dos Mágicos” – da Difusão Européia do Livro – 1968 – pg. 47
[4] Carlos I foi casado com Henriette-Maria da França, irmã do rei Luís XIII, pai de Luis XIV. A irmã de Carlos II, Henriette da Inglaterra, foi casada com Filipe de Orleans, irmão de Luís XIV.
[5] The books by Gilles C H Nullens http://www.nullens.org/content/category/1/15/51/  An outsiders view of Freemasonary  Part A: Old Craft - A.3 The Royal Society
[7] Steweard é o nome original em escocês para a versão inglesa Stuart posteriormente adotada por Jaime IV da Escócia (James I, da Inglaterra).
[9] “Nothing is wantin but the Key. If thou canst compreehend these these things, thou knowest enough”.
[10]  O fragmento de basalto é assim chamado por ter sido encontrado, em 1799, na cidade de Roseta, em árabe Rachid, na embocadura do braço ocidental do rio Nilo. 
[11] Mt. 21:42.
[12] Sam.II , 5: 6-7.
[13] Mt. 18: 19-20
[14] Órgão de pesquisa governamental do Reino Unido, patrocinado pelo Conselho de Investigações Cientificas de Biotecnologia e Biólogia do Reino Unido http://www.roslin.ac.uk/

terça-feira, 8 de novembro de 2011

V - A NATUREZA DAS SOCIEDADES SECRETAS



            A idéia de uma sociedade secreta, reunindo pessoas culturalmente avançadas, resultou do desejo dessas pessoas de proteger suas descobertas intelectuais contra os poderes organizados ou da curiosidade e da avidez alheias, se reservando o direito de utilizar tais conhecimentos no momento considerado mais oportuno, ou de os sepultar durante vários anos, ou ainda de colocar em circulação apenas uma ínfima parte[1].  Para fugir ao domínio intelectual da Igreja de Roma, as sociedades secretas passaram a combater de maneira estratégica a política papista do uso do cristianismo como um instrumento de repressão e de atraso do progresso europeu.

            As sociedades secretas que foram identificadas a partir da segunda metade do século XVI, comungam de uma mesma natureza misteriosa, ao possuírem um contexto ritualístico bem encenado, que é em verdade uma precaução sábia, pois constitui uma fachada a fim de impedir a descoberta da sua verdadeira natureza. Elas utilizavam um esplendido sistema de desinformação, precisamente calculado para desviar a atenção do que realmente é importante. É preciso familiaridade com a fatologia dos fatos, como escreveu o escritor norte-americano Norman Mailer: “É preciso distinguir os fatos essenciais dos periféricos. Dados históricos, afinal, não são factuais, e permitem revisão dos pesquisadores. Devem procurar por um começo, portanto, um fato que não possa ser dividido em partículas de fatos” [2].

            Para poder escrever algo coerente sobre estas sociedades me dediquei a ler, isenta de qualquer julgamento, as informações disponíveis. O material que encontrei foi deveras desapontador; milhares de factóides e informações em sua maioria permeadas de discriminações e superstições - como se o que estivesse mais em jogo fosse uma luta entre Deus e o Diabo -, a tal ponto que me senti transportada para o período da Inquisição. Então, seguindo o conselho de Norman Mailer, e considerando que a História é sempre escrita pelos vencedores do momento, dediquei-me a peneirar as informações de forma a obter os fatos essenciais, que permitissem traçar um perfil isento de tais organizações, as despojando das histórias fantasiosas, que afinal constituem uma bela fachada às suas reais atividades. Um mergulho nas profundezas do oceano dos fatos históricos então me revelou uma outra perspectiva dos acontecimentos: a história por trás da história oficial, da qual pincei os fatos mais reveladores.

            Durante o período das Cruzadas ocorreu também à abertura das rotas comerciais, sobretudo a da chamada Rota da Seda, muito utilizada pelas caravanas desde 3.000 a.C., e que sempre permitiram o comércio entre o Extremo Oriente, o Oriente Médio e a Europa. O movimento imigratório do leste para o oeste vindo da Ásia deixou a rota insegura e perigosa, e a partir do século X o Império Bizantino e o Islão se tornaram um obstáculo ao acesso dos europeus a ela.
             
Rota da Seda
            No mapa ao lado podemos observar a Rota da Seda, onde a parte escura representa o Império Mongol por volta de 1227.  O Império ainda viria a se expandir mais ao Sul chegando ao Vietnã, ao Norte ocupando parte da Rússia, a Leste chegaria ao Japão e a Oeste à Bagdá, e atingiria as fronteiras européias da Polônia e Alemanha.  Com a estabilidade política trazida pelo Império Mongol, a partir de 1215, a Rota da Seda retomou o seu fluxo, com as mercadorias seguindo nos lombos dos camelos, burros e cavalos. Contudo, poucas pessoas a cruzavam por inteiro, já que o transporte das mercadorias se dava em etapas e eram negociadas a cada troca de caravana. 

            No ano de 1255, os irmãos Nicolò e Maffeu Polo, originários da Croácia e estabelecidos como mercadores em Veneza, tomaram por destino a Rota da Seda. Eles seguiram os passos do franciscano Giovanni da Pian Del Carpine, que fora o primeiro cristão a percorrê-la, em 1245, com incumbência de levar uma carta do papa ao Cã mongol em Pequim, retornando de lá em 1247.  Já os irmãos Polo levaram dez anos para chegarem a Pequim, no retorno trouxeram uma carta do Kublai Cã, convidando os professores ocidentais a ensinarem em seu império e inteirar sua corte dos costumes ocidentais. Em 1971, Nicolò retornou à Pequim levando a resposta do papa e acompanhado de seu filho Marco, então com 17 anos. Marco caiu nas graças de Kublai Cã, que fez dele seu conselheiro e posteriormente seu emissário. Marco Polo só retornou a Veneza vinte e quatro anos depois, com a idade de 41 anos (1295). Todos ouviram seus relatos, suas histórias, muitos viram os tesouros que trouxe da China, mas poucos acreditaram que eram verdadeiras as suas aventuras nas terras distantes do Oriente.

            Durante uma das batalhas entre os venezianos e genoveses, Marco Paulo caiu prisioneiro (1298), e foi encarcerado em Genova. Foi na prisão que ele ditou a Rustichello da Pisa as suas aventuras. O livro veio a ser traduzido em várias línguas européias dividindo opiniões entre os céticos e crentes; para uns os relatos eram histórias que lhe foram contadas, para outros seus relatos eram verdadeiros. Aos setenta anos encontrou-se Marco Polo em seu leito de morte, e estando em seus últimos momentos um padre o incitou a dizer que havia mentido a respeito de seus relatos. A recusa de Marco Polo veio veemente e indignada: “Eu não contei nem metade do que vi!” [3]. 

            Os estudiosos de Marco Polo expressam controvérsias quanto aos seus relatos, alguns o acusam de não mencionar a caligrafia chinesa, os sapatos e amarrar e o chá, enquanto outros dizem ao seu favor que suas informações sobre o dinheiro em papel, o sistema de correio e a menção do Japão pelo nome chinês de “Zipang” estão corretas. De certo Marco Polo não poderia de nenhuma maneira ter relatado tudo que vira com perfeita fidelidade, pois o mundo europeu vivia debaixo da censura da Inquisição. A autocensura sensata deve ser a razão de muitas omissões importantes.  A ausência que se faz mais notável é a que diz respeito às características religiosas do Império Mongol, onde era permitida a livre expressão de fé, desde aquelas de origens nativas, Taoísmo e o Daoísmo, às de origem estrangeiras, tais como o Islamismo e o Budismo. A omissão se faz relevante considerando que Marco Polo inseriu em seus relatos a sua visita à Índia, onde havia a prática concomitante do islamismo, do hinduísmo e do budismo. De certo Marco Polo não fez nenhum relato oficial sobre as religiões orientais, mas é possível que tenha feito um relato sub rosa, um relato secreto, onde descreveu principalmente informações do Budismo.

Buda e seus Discípulos
            A história do príncipe hindu Siddartha Gautama, sem dúvida chegou ao conhecimento de Marco Polo e deve ter lhe chamado à atenção pelo fato de seus preceitos guardarem intima semelhança com os de Jesus, apesar de ter nascido, ao que consta, em 563 a.C., mais de cinco séculos antes do Sermão da Montanha.

             Siddartha aos 29 anos abandonou o luxo e as riquezas da casa de seu pai, por não se conformava tanto com a rigidez das castas do hinduísmo como a condenação do mundo ao sofrimento. Adotou uma vida de práticas ascéticas acompanhando os eremitas hindus, considerados homens purificados. Todavia, após seis anos refletiu que não havia alcançado o grande conhecimento que buscava. Então, decidiu-se a ficar sentado debaixo de uma grande figueira e jamais abandonar a mesma posição até encontrar a “verdade”. Tinha ele 35 anos, quando após permanecer imóvel por algumas dezenas de dias veio a alcançar a “Iluminação”. A partir de então, ele passou a ser conhecido como Buda, que quer dizer “o Sábio” ou “o iluminado”, ou ainda “o despertado”.

           
            Há uma passagem no Evangelho de São João que ao ler sempre me remete à lembrança de Buda. Ela descreve o encontro de Jesus com Natanael, que a princípio não acreditava que Jesus pudesse ser o messias. Natanael ao se aproximar de Jesus, este lhe diz: “Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade”. Espantado, Natanael perguntou a Jesus: “Donde me conheces?” Jesus lhe responde: “Antes que Filipe te chamasse, eu te vi, quando estavas sentado debaixo da figueira”. Natanael impressionado diz a Jesus: “Mestre, tu és o filho de Deus, tu és o rei de Israel!” Então Jesus replica lhe: “Porque eu te disse que te vi debaixo da figueira, crês! Em verdade, em verdade vos digo, vereis o céu aberto e os anjos de Deus subir e descer sobre o Filho do homem” [4]. A luz desta passagem está no conhecimento do significado da palavra israelita. O leitor tem que ter o conhecimento de uma passagem bíblica do Gênesis, onde Jacó encontra-se com um anjo, que ele considerou depois como se fosse Deus, ao dar ao local do encontro o nome de Fanuel (a face de Deus), porque acreditava que tinha visto Deus face a face e conservara a vida, contrariando a crença vigente da impossibilidade de ver a Deus sem ser fulminado por Ele. Jacó relata que passara a noite lutando com o anjo, e que depois disso o anjo lhe deu o nome de Israel (aquele que luta com Deus), porque lutaste com Deus e com os homens e venceste. Então, quando Jesus diz que Natanael é um perfeito israelita onde não se encontra dolo, se refere precisamente ao fato dele ser uma pessoa que persiste inabalável em busca da verdade, capaz de enfrentar as convenções humanas e até Deus por ela. Buda também lutou com Deus e com os homens quando estava debaixo da figueira, de certa forma pode-se considerar Buda um perfeito israelita como Natanael, o que aproxima a figura de Buda do cristianismo.

            Depois da iluminação, Buda tomou a decisão de ensinar o caminho da revelação àqueles que o seguiam. Ensinou que não havia intermediários entre o ser vivente e o nível divino, tal como Jesus. Buda disse que era preciso através da meditação conhecer a natureza da mente e que o choque desta revelação permitia que a ignorância fosse eliminada e Jesus disse: “... conhecereis a verdades e a verdade os libertará” [5]. Estabeleceu, também, o princípio da renúncia a si mesmo, como o único meio dos seres humanos se libertarem das suas paixões, Jesus também ao dizer: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. (...) Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar a sua vida? Ou o que dará o homem em troca de sua vida?...” [6] . Buda morreu com 70 anos, por volta do ano de 483 a.C. e o seu legado de sabedoria foi à base para o Budismo, o qual se propagou por toda a Ásia.

            Marco Polo viveu até 1324, o suficiente para testemunhar a grande fome (1315-1317) e as epidemias que passaram a assolar a Europa e que culminaria com a peste negra[7]. Viveu para ver só início do sofrimento que sobreveio naquele século, mais ainda estava por vir com a guerra dos 100 anos (1337-1453), que envolveria todos reinos europeus na disputa entre a França e a Inglaterra pela coroa francesa. A paz só retornou aos países europeus após a guerra das Duas Rosas (1455-1485), pela disputa do trono inglês, quando finalmente todos os tronos europeus ficariam ocupados por seus devidos reis. Passados os cataclismas e os infortúnios apocalípticos, das cinzas negras deixadas pela passagem da morte, qual Fênix ressurgirá a Europa, lavada nas lágrimas vertidas por seus filhos padecidos.

            Apesar das desventuras, da insegurança e da falta de meios, o conhecimento cientifico continuou o seu caminho em direção ao progresso da civilização ocidental. Os estudiosos não se davam descanso na busca do conhecimento, no desejo de encontrar o caminho para o fim da ignorância, motivo de todo o sofrimento. Encontraremos, assim, nos relatos históricos do século XV, a prova incontestável de que o conceito de “iluminação” budista chegou à Europa, seja pela mão de Marco Polo ou de qualquer outro explorador que tenha rondado o Oriente a partir de então. Momento este em que se passou a ser apresentada à designação illuminati, termo oriundo do italiano para significado de iluminados, sendo este adotado por entusiastas que anunciavam a próxima chegada de uma luz iluminadora, a qual não seria dada a conhecer por nenhuma autoridade, mas através de uma origem secreta vinda de dentro, que resultaria na exaltação da consciência[8].

            Outros grupos diziam possuir documentos secretos da Antiguidade, grande parte em latim, capazes de oferecer o caminho através dos sentidos para o conhecimento completo de Deus. Tais grupos gnósticos de forte influência italiana surgiram em Salamanca, entre 1492 e 1498, e se chamavam alumbrados ou aluminados, e suas idéias vicejavam ainda por lá ainda em 1527, quando Inácio de Loyola fazia seus estudos e teve simpatia pelos conceitos do grupo. Esta influência inegável pode ser comprovada na obra de Loyola, chamada Exercícios Espirituais, publicada em 1548, que inova com um misticismo contemplativo, introduzindo a meditação para a salvação da alma. A orientação da ordem religiosa por ele fundada em Paris, a Companhia de Jesus (jesuítas), que tinha como principal objetivo à conversão dos heréticos para levá-los a serviço da glória de Deus, refletiria também esta influência. A ordem se tornou em pouco tempo dedicada ao ensino do conhecimento, fosse por questões missionárias, fosse para institucionalizar o ensino e manter sobre ele rigoroso controle, segundo as normas da Igreja de Roma. Outros movimentos alcunhados de illuminati surgiram na França, a partir de 1529, mas o movimento mais forte se deu entre 1623 a 1635, oriundo da cidade espanhola de Sevilha. Contudo, todos eles sofreram rigorosa repressão da Inquisição.

            Um grupo originário das tradições da Ordem dos Templários começou a se formar em 1422, tornando-se conhecido como sociedade secreta em 1537, sob o nome de rozacruzes. Reza a tradição que a Ordem dos Rosacruzes foi fundada pelo alemão chamado Christian Rosenkreuz (1378-1484), que sendo peregrino na Terra Santa acabou como discípulo de vários mestres ocultistas. Ao retornar ao Sacro Império Romano Germânico, Rosenkreuz teria fundado a ordem e construído um templo chamado O Templo do Espírito Santo, apesar da dedicação da sociedade aos conhecimentos esotéricos, o que parece paradoxal[9], mas não o é.

            Este fato se explica considerando o que pode significar o nome Christian Rosenkreuz. Naqueles tempos os nomes e sobrenomes das pessoas comuns diferiam em muito dos nossos costumes atuais, assim John Fishmonger, por exemplo, queria dizer  "João O Peixeiro", porque exatamente essa era a sua atividade. Considerando este costume, o nome Christian Rosenkreuz, quer dizer o seguinte em alemão: Christian (corruptela de Christen) que quer dizer cristão; Rosen que quer dizer rosa e Kreuz que quer dizer cruz ou crucifixo. Caso fosse Rosenkrans, significaria rosário, porquanto se chama assim por simbolizar os mistérios secretos (ou sub rosa) da vida e morte de Jesus. Então, como sabemos que a rosa é o símbolo de um segredo guardado, estando ela antecedendo a palavra “crucifixo”, a idéia que é passada do nome de Cristian Rosenkreuz seria de “o cristão que sabe o segredo da cruz” ou “o cristão do segredo da morte de Jesus”.

            É imaginável que o contato de um europeu da Idade Média com a cultura egípcia foi de tremenda impressão e assombro, sobretudo ao tomar conhecimento do mito de Osíris, que representa o princípio divino do retorno, da morte e da ressurreição eterna. Sem dúvida os Mistérios Egípcios são até os dias de hoje motivo de investigações e debates científicos, anteriormente só eram revelados aos iniciados. O tema fundamental que os permeia consiste na permanência da vida, inclusive ante a morte inerente a todo ser vivo; a morte definitiva não existiria, mas só uma mudança de estado no transcurso de um processo genésico, que se renova constantemente, e que vai do ser inicial ao adulto, e deste a um novo ser, a exemplo da semente ao fruto e deste à semente novamente. Uma revelação que esta escrita nas paredes das tumbas egípcias, e que tem o nome de “Livro do Que está no Duat”. Duat seria o céu ao revés, o local onde se dá a transformação metamórfica, a qual ocorre no segredo da escuridão, lugar onde tudo termina e começa. Interpretado por alguns como o lugar em que Jesus teria se levantado dos mortos. Uma transformação explicada pelos estágios da metamorfose do escaravelho (larva, casulo e alado), representado na divindade de Khepri, que encarna o sol nascente, quando a escuridão se torna luz. Surpreenderá a qualquer um olhar um casulo aberto de um escaravelho e ver na pupa a surpreendente imagem da múmia real envolvida em tiras e linho [10]. Mais uma vez se poderá constatar os paralelos entre os ensinamentos de Jesus e a antiga religião egípcia, a ponto de abalar a confiança do mais vigoroso fiel.

            A partir disso, podemos especular que o conhecimento secreto adquirido por Christian Rosenkreuz estava ligado intimamente com o mistério da morte e ressurreição de Jesus. O que lhe permitiu fundamentar um estudo a respeito do desenvolvimento do poder do ser humano sobre a natureza e sobre si próprio. Um processo capaz de conduzir à imortalidade e a um estado de hiperconsciência sobre tudo o que se passa no Universo, a exemplo do sucedeu com os discípulos de Jesus, ao serem tomados pelo Espírito Santo.  Conta-se que Christian Rosenkreuz construí uma câmara mortuária para ele onde encerrou o “compêndio do Universo”, que se constituía de livros e objetos capazes de resumir o conhecimento universal, onde posteriormente foi enterrado em 1484, com a idade de 106 anos, o que era um feito fantástico para uma época em que a média de vida era de cinqüenta anos.

            No mesmo período em que viveu Rosenkreuz, um outro alemão chamado Joahannes Gensfleisch Gutenberg descobriu a tipografia (1440), com tipos móveis que permitia a impressão de textos longos, e em 1448 imprimiu pela primeira vez a célebre Bíblia de quarenta e oito linhas. De certo que Gutenberg não concebia a revolução que a sua descoberta traria. Até esta época apenas uma minoria da população européia era letrada, a grande massa era analfabeta e ignorante. Nos primeiros tempos a tipografia de Gutenberg serviu principalmente para imprimir Bíblias e livros religiosos, mas depois se alastrou para todas as áreas desde a literatura às ciências. Seria o instrumento que agilizaria a comunicação e a troca de conhecimento, fazendo com que gradualmente o número de letrados fosse crescendo, passando a atingir mais e mais camadas da sociedade.

            Até Gutenberg, o acesso à Bíblia era de tal maneira limitado, que nem os próprios padres tinham conhecimento do Novo Testamento em sua integralidade. Com a impressão, os textos religiosos se tornaram mais acessíveis, mesmo aos vários níveis da hierarquia clerical, de modo que os debates sobre os ensinamentos de Jesus passaram a ganhar dimensões, que fugiam ao controle da Igreja de Roma. Na Inglaterra Erasmo de Rotterdam (1466-1536) sob os auspícios de Henrique VIII iniciou o exame dos manuscritos do Novo Testamento, preparando a nova edição com tradução do grego para o latim e incluía anotações e comentários, sendo publicada em 1516. Este fato seria decisivo no surgimento de severas criticas aos métodos praticados pela igreja romana para defesa da fé. O epicentro deste movimento reformador do cristianismo romano se deu no Sacro Império Romano Germânico, quando um filho de camponeses, que se tornara mestre em filosofia pela Universidade de Erfurt (1505), veio a ser monge agostiniano, sacerdote (1507) e depois doutor em teologia. E, estando ele tomado de forte convicção em suas crenças religiosas se opôs à venda de indulgências pela Igreja de Roma, respaldado na doutrina de São Paulo e na salvação pela fé (1517). Perseguido pela Igreja de Roma e pelo jovem Carlos V, Imperador do Sacro Império, ficou refugiado com o príncipe de Wartburg, onde traduziu a Bíblia para o alemão, ou seja, pela primeira vez a Bíblia foi traduzida do latim (ou grego) para uma língua “bárbara”.

             O nome, desse simples e corajoso homem que decidiu erguer sua voz contra as práticas questionáveis da Igreja de Roma, era Martin Lutero (1483-1546). Ele acreditava possível promover a chamada Reforma sem que ocorresse um cisma. Foi excomungado em 1520, e mesmo privado de seus direitos recusou-se a se submeter, porquanto considerava, que em matéria de fé, a Escritura Sagrada era a suprema autoridade e a salvação se dava apenas pela fé. A nobreza alemã cansada com as sobrecargas dos altos dízimos cobrados pela Igreja de Roma, a título de salvação e compra da “fé”, sentiram-se respaldados moralmente para enfrentar os seus abusos, e resistiriam aos ataques de Carlos V, Habsburgo, fiel protetor da igreja romana. Como não poderia perder o apoio político dos príncipes alemães, Carlos V reconsiderou a sua posição e em 1547 assinou o tratado de Augsburgo, reconhecendo a existência legal do luteranismo no Sacro Império Romano Germânico e permitindo secularizar os bens eclesiásticos dos principados luteranos.

            A Igreja de Roma, que até então se dedicara a patrocinar as aventuras náuticas dos portugueses e espanhóis, em busca das conquistas de terras ultramares e das apregoadas riquezas das Índias, se viu subitamente assolada pelo movimento reformista que se alastrou pela Europa, o qual lançou duvidas sobre a sua autoridade religiosa e conseqüentemente política. O luteranismo se propagou pelo norte do Sacro Império, atingiu as regiões da Prússia, Dinamarca, Suécia, Noruega e chegou também a Suíça e de lá à França, onde João Calvino (1509-1564), como partidário da Reforma luterana estabeleceu uma doutrina essencialmente centrada no conceito divino da fé cristã primitiva, estabelecida por São Paulo. O Calvinismo passou a se expandir pela França, Suíça, Holanda, Inglaterra e Escócia. Na França o Calvinismo teria aspectos dramáticos devido à intolerância religiosa, como a matança de Wassy (1562), que resultou nas guerras de Religiões. Mas na Inglaterra, Henrique VIII rompeu com Roma, em 1531, e posteriormente seu filho Eduardo VI, foi o fundador do anglicanismo, que reuniu conceitos do cristianismo romano e do luteranismo, adquirindo aspecto formal como Igreja Anglicana no reinado de Elisabeth I (1558).

            Toda esta revolução religiosa se deveu tão apenas ao fato da revelação do Novo Testamento, que até então fora mantido em grande parte em segredo pela Igreja de Roma. É no clima da Reforma que a Companhia de Jesus recebe a autorização papal para seu funcionamento, em 1534. A ordem era dotada de uma constituição onde exigia abnegação e total obediência ao Papa e superiores hierárquicos. Em pouco tempo a nova ordem fundou escolas, faculdades e seminários por todos os reinos fiéis a Igreja de Roma. Era empregado o método elaborado nos Exercícios Espirituais [11] por Loyola para a salvação da alma dos fiéis. O fiel deveria permanecer em silêncio por várias semanas, submetendo-se a uma série de meditações direcionadas à vida de Jesus, tendo encontros neste período apenas com o seu orientador espiritual, que o socorreria no entendimento das mensagens que viesse a receber de Deus durante as meditações. É impossível não considerar a influência das práticas budistas de meditação neste caso.

            Os jesuítas em razão de seu método de conversão dos hereges vieram a ser a tropa de elite papal e confessores dos reis católicos. Suas missões religiosas chegariam ao Japão (1580), ao Tibet (1661) e nas colônias latinas-americas de Portugal e Espanha. O papel da Companhia de Jesus passa a ser fundamental para a conservação do poder da Igreja de Roma, e o poder político exercido pela ordem religiosa ia muito alem do território da fé, utilizando-se de métodos pouco convencionais e obscuros para interferir em vários governos europeus a fim de atender as prerrogativas estabelecidas pela Igreja de Roma ou dos dirigentes da ordem monástica[12]. A rede de influência dos jesuítas irá se confrontar em aproximadamente dentro de um século com as redes que surgentes do desenvolvimento cientifico e cultural no momento em que passaria a ocorrer a maior transformação histórica da Humanidade, onde se romperia de maneira dramática com o status quo vigente por séculos e séculos.



[1] Louis Pauwels e Jacques Bergier – “Le Matin des Magiciens” - Librarie Gallimard, Paris – Pg. 48.
[2] Norman Mailer – “Harlot’s Ghost” – Editora Best Seller – 1991 – Vol. II – pg . 545.
[4] Jo - 1: 43-51.  O Evangelho de São João data de 90 d.C. Não faz parte dos Evangelhos sinópticos, que guardam semelhanças entre si.  Este Evangelho é o mais polemico, e por isso considerado um Evangelho espiritual. Curiosamente a Igreja Católica diz que ele não foi escrito para os pagãos, mas para os cristãos que se confrontavam com numerosas objeções e lutavam para defender a fé de doutrinas estranhas. O que chega a ser irônico, tal é a quantidade de referências aos conhecimentos herméticos da Antiguidade no texto.
[5] Jo - 8:31.
[6] Mt. 16:24-26.
[7] A subnutrição causada pela grande fome predispôs a população européia a grandes surtos epidêmicos, dos quais o maior foi à peste negra, ou peste bubônica, que grassou entre os anos 1347 e 1350, dizimando quase um terço da população européia, ou seja, vinte e cinco milhões de pessoas. A peste veio da Ásia Menor e através de um navio veneziano chegou à Itália, dali propagando-se para o resto da Europa. (Raymundo Campos – “História Geral” – Vol. 1 - Atual Editora – 1981 – pg. 130).
[8] Illuminati - Wikipedia, the free encyclopedia.htm


[9] Christian Rosenkreuz - Wikipedia, the free encyclopedia.htm
[10] Lucien Lamy  - “Egyptian Misteries” – Thames and Hudson, London - 1981

terça-feira, 1 de novembro de 2011

IV - A NECESSIDADE DO SEGREDO


               A Ordem dos Templários tomou um caminho dos mais interessantes após a perseguição na França. Os templários tinham forte presença na Espanha, Portugal e Inglaterra. Os reis da Espanha e Portugal pediram ao papa que os bens da ordem não beneficiassem a Ordem dos Hospitalários e, sim, que permitisse que os templários destes locais constituíssem novas ordens sob outros nomes. Assim, na Espanha, Jaime II de Aragão transformou com apoio papal a antiga Ordem dos Templários na Ordem de Montesa, no ano de 1312. Em Portugal, o rei D. Diniz conservou em 1317 a mesma ordem de cavalaria sob o nome de Milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo, a celebre Ordem de Cristo, contudo o papa João XXII ao aprová-la reservou para a Igreja de Roma o privilégio de investir certo número de cavaleiros, originando a Ordem Suprema Pontifícia de Cristo.

Brasão da Ordem de Cristo
       Como Grão-Mestre da Ordem de Cristo, o Infante D. Henrique fundou a escola náutica de Sagres; para assegurar a posse das conquistas feitas e por fazer. O Infante obteve uma bula papal concedendo à Ordem de Cristo as terras descobertas e por descobrir, desde o Cabo Bojador até às Índias [1]. A cruz do brasão da Ordem de Cristo seria pintada nas velas das caravelas portuguesas, tornando-se a insígnia do poder naval português, ao mesmo tempo em que trazia a mensagem subliminar, que como Cristo a Ordem dos Templários ressuscitara. 


No que diz respeito à Inglaterra a questão da Ordem dos Templários foi extremamente delicada e difícil, dada à profunda influência política exercida pelos Templários desde o primeiro momento em que o Grão-Mestre da ordem e co-fundador, o francês Hughes de Payens chegou à Inglaterra, em 1128, para levantar dinheiro para as Cruzadas. A Inglaterra havia sido submetida há apenas algumas décadas, pelo dinamarquês Guilherme, o Conquistador, Duque da Normandia. O filho de Guilherme, Henrique I, precisava firmar a nova casa real inglesa, e recebeu com bons olhos a oportunidade que lhe era oferecida pelos Templários de conseguir através deles o necessário apoio da Igreja de Roma para o trono. A ordem passou a contar desde então com importantes patronos e foi obsequiada pelo rei Henrique II com vastas terras pelo território inglês, inclusive o castelo Barnard (Northumberland), construído por Bernard Balliol nos anos de 1125-1140, para proteger a travessia do rio Tees, onde nas proximidades os templários construíram uma igreja redonda, com base na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. Em 1184, uma nova igreja redonda foi construída em Londres, próxima às margens do rio Tamisa, sendo chamada Novo Templo, consagrada em 1185.

A influência dos templários se tornou considerável quando em 1200, o papa Inocêncio III, através de uma bula papal, determinou a imunidade das pessoas, bens e propriedades que estivessem sob a égide da ordem. Desta maneira o Novo Templo se tornou o depositário dos ricos tesouros da ordem. Não é de admirar que a Ordem dos Templários tenha tido papel fundamental na elaboração da Magna Carta (1215) e em outros processos legais que estabeleceram tanto as bases da monarquia como dos sistemas financeiro e bancário ingleses.

Henrique III confiou aos templários as comissões militares, financeiras e diplomáticas. Seu filho, Eduardo, mais popularmente conhecido como “Longshanks” (pernas longas), casou-se com Eleanor de Castela, que o acompanharia sempre em suas expedições até falecer. A futura rainha da Inglaterra chegou a ir à Palestina com o marido, onde deu a luz a uma filha em 1271, que morreu meses depois, antes do retorno à Inglaterra. O rei ao enviuvar[2] ficou desolado a ponto de só voltar a se casar nove anos depois, com Margarida da França, irmã de Filipe IV, o Belo. Seu filho Eduardo II se casou com Isabel da França, filha de Filipe IV.

 Em vista dos laços familiares que uniam fortemente o trono da França ao trono da Inglaterra, Eduardo II ficou perplexo quando seu sogro começou a perseguir os templários, que haviam se tornado o poder por de trás do trono inglês. Eduardo II, que era mais dado às suas paixões sexuais do que aos negócios pertinentes ao Estado, cedeu as exigências de seu sogro e do papa Clemente V. O rei inglês deu inicio a captura dos templários em 1308, dando prosseguimento a um processo que durou até 1310, apesar disto a maior parte dos templários foi absolvida da acusação de heresia e aparentemente se reconciliou com a Igreja de Roma. Todavia a bula papal que ordenava a entrega dos bens da Ordem dos Templários para a Ordem Hospitalária (chamada na Inglaterra desde sua fundação em Londres, em 1189, de Priores de São João de Jerusalém na Inglaterra), foi desconsiderada até 1324, devido à oligarquia baronial que protegia a ordem e tinha forte poder político. Até 1335, os Priores de São João não conseguiram que um chefe prior permanecesse vivo por muito tempo, só com Philip De Thame adquiririam a estabilidade necessária para a partir de 1347, dar um novo destino ao Novo Templo, cedendo para as funções advocatícias parte da área por ele ocupada, dando origem à presença das instituições legais nas proximidades, e a partir donde veio a se desenvolver o poderoso centro financeiro londrino, a City.

Após a absolvição muitos templários mudaram-se para a Escócia, onde apoiaram o líder de origem normanda Roberto Bruce (ou De Brus), nas campanhas para a independência da Escócia. Bruce havia sido excomungado pela Igreja de Roma por ter promovido a morte de um nobre aliado da Inglaterra, a qual não desejava a independência escocesa, mas esta a veio a acontecer em 1314, quando Robert Bruce foi sagrado rei dos escoceses. A independência escocesa perdurou até 1707, quando o parlamento escocês aprovou o ato de união da Escócia com a Inglaterra, motivado pela ascensão do rei escocês Jaime IV ao trono inglês.

Entre os supostos destinos da Ordem dos Templários na Inglaterra, o mais credível é que seus membros tenham se estabelecido na Escócia, retomando lá suas atividades, sobretudo as bancárias. Nenhuma evidência a este respeito é oferecida historicamente, contudo é possível fazer uma ligação entre os templários e a Maçonaria (Freemasonary) e os Rosacruzes, duas poderosas sociedades secretas de origens indefinidas que ainda vicejam até os nossos dias, que afora todo o folclore em torno delas possuem como principal elemento suas poderosas redes de influência, fator inegável do estrondoso sucesso dos negócios da Ordem dos Templários.

O poder da Ordem dos Templários não se resumia apenas ao refinado sistema bancário e seus tesouros. Durante o período cruzadista desenvolvido entre os anos de 1095 a 1270, os templários tiveram na Palestina um pleno contato com outros conhecimentos, oriundos tanto do islamismo como das culturas greco-romana e egípcia. É necessário considerar que o desenvolvimento cultural e intelectual árabe por esta época era surpreendente, muito à frente dos europeus cristãos. Cabe aqui uma reflexão sobre o prodígio do povo árabe, que obstante de seu vigor e rudeza, teve uma capacidade de assimilação de essencial da sabedoria da Antiguidade (astronomia, medicina, álgebra, etc.) e uma variedade de elementos culturais heterogêneos de forma a constituir um conjunto harmonioso que formou a base cultural do Islão. Livres dos dogmas e teorias que paralisavam as atividades cientificas do Ocidente, sem uma instituição que retesse o conhecimento em secretas bibliotecas, os árabes usufruíram o livre fluir da sabedoria do racional ao irracional, da ciência à magia, mergulhando em toda e qualquer área da competência intelectual. O resultado foi um alto nível de civilização. Foi pelo contato com os conhecimentos do Islão, com a corrente de tradução mulçumana elaborada de um Aristóteles, de um Galeno, de um Pitágoras ou de um Ptolomeu que estas obras puderam penetrar no Ocidente, através do período sarraceno na península Ibérica e também pelas mãos dos cavaleiros templários.

Os árabes eram exímios matemáticos, introduziram o conceito do zero e o emprego dos números arábicos, que causaram uma revolução nos cálculos e uma agilidade para o emprego destes na engenharia e arquitetura. O conceito de Universidades e dos centros de estudos dedicados à pesquisa foi trazido por eles ao Ocidente, cuja contribuição ao desenvolvimento cultural ao sul da península Ibérica durante o breve período de ocupação mulçumano[3] é historicamente incontestável. Os árabes dominavam mar Mediterrâneo com suas modernas naus, e viriam a contribuir para o desenvolvimento náutico nascente entre os mercadores de Genova e Veneza.

O verdadeiro tesouro da Ordem dos Templários era realmente constituído de um precioso conhecimento, amealhado durante o período em que conviveram mais intimamente com o Oriente Próximo. Um conhecimento per si revolucionário, capaz de acelerar o processo civilizatório ocidental, contudo havia um senso de prudência em relação o problema das diferentes estruturas mentais, a ignorância e embotamento que grassava no Ocidente, que impedia a aplicação desses conhecimentos de imediato. Era preciso preparar as pessoas, educá-las e orientá-las a fim de criar os instrumentos para esta revolução cultural.

A exemplo da Universidade de Karueein, em Fez, e da Universidade Al-Azhar, no Cairo, as duas mais antigas universidades do mundo, o Islão influenciaria o conceito de estudo e educação. A Universidade de Bolonha, na Itália, começou a se constituir em 1088, foi fundada em 1118, mas só se formalizou como tal em 1158. Em Paris, do mesmo modo que em Bolonha não havia propriamente uma universidade, os estudiosos freqüentavam os arredores da catedral de Notre Dame, se formando de modo espontâneo uma associação de mestres e alunos, chamada universitas magistrorum et scholarium, só em 1257 a Universidade de Sorbonne (Universidade de Paris), seria fundada por Robert Sorbon, sem um especifico ato real ou bula papal para isso. Data de 1096 os primeiros registros de reuniões de mestres e alunos na região de Oxford, na Inglaterra. Com o ato de Henrique II, que proibiu os estudantes ingleses de estudarem em Paris, a Universidade de Oxford passou a funcionar de maneira informal a partir de 1167 e em 1209 estudantes dissidentes de Oxford fundaram a Universidade de Cambridge. A Universidade de Salamanca seria fundada na Espanha apenas em 1218, enquanto as Universidades de Córdoba e Granada fundadas pelos árabes floresciam desde o século X.

Naturalmente a instrução inflamou as mentes reprimidas por uma doutrina religiosa permeada de superstições, incitou ao questionamento o próprio cristianismo romano e sua justeza mundana, e fazendo surgir o que a Igreja de Roma chamou de heresias, as quais na verdade diziam respeito ao hermetismo religioso, mas também a qualquer forma de conhecimento cientifico que contrariasse os conceitos eclesiásticos estabelecidos ou que contestassem a autoridade da Igreja de Roma. Uma preparação para o advento do sábio na sucessão do sacerdote contou com estrema contribuição financeira e de subsidio intelectual da Ordem dos Templários, que por ocasião da supressão de suas funções formais em 1312, passaram a se ocultar sob o signo hermético da mais bela das flores: a rosa.

A rosa é o símbolo do segredo guardado, este simbolismo advém da rosa ser uma das raras flores que fecham sobre o seu coração. Quando suas pétalas se abrem expondo a sua corola, o seu coração, então se aproxima a sua morte. Em alguns escudos dos cavaleiros medievais o símbolo da rosa era estampado com o lema: “Quanto si mostra men tanto è piu bella” (Quanto menos ela se mostra mais bela é). A rosa era usada para impor o silêncio do segredo, quando era colocada em cima de uma taça de vinho, como sinal de que a conversa deveria ser mantida rigorosamente secreta, sendo uma falta à honra repetir as conversas realizadas sob a rosa (sub rosa).  No tempo em que os templários se dispersaram, em toda Europa surgiram estalagens, tabernas e estabelecimentos ostentando a palavra “rosa”. Suspeita-se que não era uma mera coincidência, mas que suas tabuletas indicavam aos viajantes que tais locais se encontravam sub rosa, e que tudo o que dissessem ou fizessem jamais seria divulgado, que o local era “seguro” [4]. William Shakespeare em sua peça Henrique VI, parte 1, (1589-1592) fez alusão ao relacionamento dos templários com o signo da rosa, ao estabelecer como cenário o jardim da Igreja do Templo, em Londres, onde ao serem colhidas duas rosas uma branca e outra vermelha deu-se início a Guerra das Duas Rosas[5].

Um passeio pelos monumentos da Europa permite uma significante constatação: a rosa está presente na maioria dos monumentos erigidos após o século XI, quando se deu início à construção das majestosas catedrais, em obras de engenharia e arquitetura até então inconcebíveis. Múltiplos vitrais coloridos com representação geométrica perfeita das pétalas róseas ornamentam as naves, como a existente na catedral de Notre Dame de Paris. Para onde quer que se vire há de se encontrar o signo da rosa como uma assinatura da superioridade de seus construtores. Prova de que a vaidade humana não suporta o anonimato.

Em um estudo da psicologia criminalística averiguou-se que um criminoso por mais perfeito e atento que seja aos detalhes, sempre deixará uma identificação do seu ato, mesmo que esta seja imperceptível. Ao mesmo tempo, esta sutil identificação parece lançar um desafio intelectual a quem investiga, para que se descubra o segredo nela inserido. O mesmo parece se dar no que diz respeito às sociedades secretas, que em verdade anseiam pelo reconhecimento de sua superioridade intelectual. E, não haverá um entre os seus membros que deixe de se considerar acima do populacho, devido a primordial característica humana: a vaidade. Tal aspecto tão condenado em termos moral e religioso, sem dúvida é o único motivo pelo qual o ser humano abandonou seu estado animal para adotar o racional, é o único motivo do desenvolvimento de todas as civilizações. Sem a vaidade o ser humano jamais ambicionaria tornar o que parecia ser impossível em realidade. Aquele que ama a si mesmo tem por vaidade a excelência de suas qualidades, a fim de distinguir-se entre seus pares. Até o uso da bondade oculta a força da vaidade, nada pode ser mais vaidoso que a exteriorização da compaixão religiosa, sem empatia ou simpatia, que expressa apenas pura superioridade de um indíviduo sobre o outro, que de maneira absoluta parece desconsiderar o critério da justeza das coisas.

A diferenciação mental existente entre os seres humanos é para os indivíduos dotados de intelectualidade uma cruz a ser carregada, que encerra a reflexão do quanto é árduo de compreender e conviver com os outros, tendo sempre que se deparar com as dificuldades decorrentes da ignorância que o cerca e que retardam o caminho para o seu desenvolvimento e realização. É observável que as nações, pequenas o bastante para adquirirem uma homogeneidade, permitem o desenvolvimento da amizade em todas as áreas sociais, sendo este o caso exemplar da Holanda, Dinamarca e Suíça. Isto porque os níveis de diferenças culturais são praticamente inexistentes, o que estabelece um contexto favorável a um adequado desenvolvimento intelectual, que eleva o nível geral de instrução do povo. Já as grandes nações sofrem com as enormes diferenças culturais em suas sociedades, causando um desintonia intelectual, onde o poder político das massas populares pode subjugar os níveis de excelência racional, comprometendo assim o desenvolvimento e o progresso desejado do país.

A necessidade de uma homogeneidade intelectual entre indivíduos que interagem parece ser imperativa, para que novos níveis racionais sejam alcançados, o que se comprova na vitalidade das constantes trocas de idéias existente nos meios acadêmicos, que contribuem enormemente para o progresso intelectual e cientifico. Como no final da Idade Média as faculdades ainda eram raras, foi de maneira espontânea e natural que os indivíduos mais intelectualizados acabaram por estabelecer laços de amizade entre si, tendo o intuito de acumular mais e mais o conhecimento disponível desvinculado da égide do clero. As sociedades secretas em suas origens eram totalmente voltadas para o conhecimento, conhecimento este capaz de elevar o poder de um reino sob outro, que poderia gerar fortunas, definir vitórias em guerras e aniquilar os adversários. É natural que os guardiões dos conhecimentos secretos não tivessem por desejo desperdiçar a misteriosa ciência abandonando-a a profanação involuntária das massas ignorantes, porquanto o abuso desta ciência poderia determinar a rápida destruição pelo caos da civilização do Ocidente. O perigo extremo levou à discrição extrema.

O cristianismo nos seus primórdios era uma sociedade secreta em razão da perseguição sofrida por Roma, o judaísmo também só sobreviveu após a diáspora impetrada por Adriano e sucessivas perseguições por ter se tornado uma sociedade secreta. Muitos dos conhecimentos que temos da Antiguidade se devem ao fato dos membros das sociedades secretas terem guardado as documentações pertinentes. Nós podemos encontrar inúmeros os exemplos da limitação do fluir do conhecimento, seja por um motivo ou por outro, mas todos se baseiam num mesmo conceito, de que em razão das diferenças de nível de inteligência e entendimento, nem todos teriam condições de compreender e poderiam fazer uso errado de tal conhecimento. O próprio Jesus dizia: “Não lanceis aos cães coisas santas, não atireis aos porcos as vossas pérolas, para que não as calquem com os seus pés, e voltando-se contra vós, vos despedacem” [6]. Ou seja, não se deve dar sabedoria a quem não sabe recebê-la, para não causar revolta e destruição. Se Jesus de um lado valorizou inúmeras vezes a necessidade do segredo, paradoxalmente também disse que toda a verdade seria revelada, isto porque não há segredo que não se renda à luz da verdade e ao tempo. O segredo só existe enquanto se faz necessário, depois se revela na realidade, na maioria das vezes de forma espontânea e circunstancial, a revelia de quem o tenha guardado.

A verdade também pode ser nociva à realização de um objetivo mais alto, por este motivo Jesus fez uso das parábolas para propagar sua doutrina, “para que, vendo, não vejam, e ouvindo, não ouçam, nem compreendam” [7], desta maneira ocultava a sabedoria dos que tinham “corações endurecidos” e sem fé. Após um longuíssimo período em que a verdade fora oculta, ela passou a se revelar a partir do século XIII, mas o âmago desta verdade pareceu tão brutal aos que a conheceram, que viram por bem ocultá-la novamente e revelá-la só quando tantos outros como eles estivessem preparados para bem recebê-la.

                                  



[1] José Armando Vicente de Azevedo (Conde de Azevedo e Bocaina) – “A Ordem de Santo Huberto de Lorena e Bar” - Separata da “Revista Numismática” – Ano XVII – No. 1-4 – 1949 – pg. 08.
[2] Eleanor de Castela faleceu em 1290.
[3] A invasão sarracena se deu a partir de 711. O Califado de Córdoba (Omíadas) durou de 756 a 1031, foi tomado em 1236 pelos espanhóis. O Estado mulçumano de Granada resistiu até 1492, quando foi conquistada pelos Reis Católicos.
[4] Robert Charroux – “Histoire inconnue des hommes depuis cent mille ans” – 1963 – Robert Laffont, Paris. Pg. 376-379.
[5] A “Guerra das Duas Rosas” (1450-1485) recebeu esse nome porque as duas casas reais de York e de Lancaster, ambas descendentes de Eduardo III, traziam como símbolo em suas armaduras e escudos uma rosa branca e uma rosa vermelha respectivamente. Por sua vez a rosa Tudor simbolizava a união das duas casas em Henrique VII.
[6] Mt. 7 ; 6
[7] Mt. 13: 10-15