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segunda-feira, 12 de março de 2012

XI - OS BANQUEIROS



Não existe segredo mais bem guardado na História que a origem dos bancos, isto se deve a moral cristã vigente na Idade Média, que considerava o lucro um pecado, não porque fosse realmente pecaminoso, mas porque não interessava à classe eclesiástica, e muito menos à nobreza, que o povo em geral desenvolvesse ambições materiais, e com isso adquirisse algum poder, que pudesse ser uma ameaça à dominância que estas duas classes exerciam.

Segundo os relatos disponíveis, os judeus por terem um talento incomum para o comércio e profundo conhecimento de ourivesaria, lidando com prata, ouro e pedras preciosas, se tornaram no transcurso do exercício profissional também financistas, praticando o empréstimo de dinheiro a juros, comumente chamado de agiotagem. Com as Cruzadas os judeus foram perseguidos, não só porque a Igreja de Roma a fim de preservar a própria imagem fazia recair sobre o povo judeu a culpa da morte de Jesus enquanto eximia os romanos, mas também, e principalmente, porque os judeus detinham um significante poder comercial e financeiro. Para fugirem à perseguição que se deu neste período muitos judeus se converteram ao cristianismo, enquanto outros foram forçados a isso, o que introduziu na comunidade comercial européia novas práticas de negociações e métodos financeiros.

Na mesma medida que se fazia crescente a prática comercial desenvolvida com a influência normanda, também progredia a economia, gerando uma necessidade cada vez maior de pessoas capacitadas para administrarem as operações financeiras. Ora, muitos dos cavaleiros da Ordem dos Templários pertenciam à alta nobreza, o que permitiu que captassem mais recursos convencendo outros nobres como Fulk V de Anjou a financiá-los. Em pouco tempo os templários passaram a ter uma atividade financeira considerável, o que os levou a incorporarem os métodos financeiros até então praticados apenas pelos judeus.

Nas feiras de Champagne existiam locais onde se fazia o cambio das várias moedas européias, esses locais eram chamados de bancas, o que deu o nome aos seus operadores de banqueiros. O recrudescimento da atividade financeira deu a estas bancas novas funções como o empréstimo, financiamento e transferência de dinheiro. O recibo do depósito de ouro inventado pelos templários permitia deixar o ouro em segurança em troco de um papel selado e com a garantia do banco templário. O ouro pertencia a quem apresentasse o papel, chamado “certificado de ouro” que era a também usado como “promessa de pagamento”. Resolvido o transporte de dinheiro, restava o problema da segurança do transporte das mercadorias de um lado para outro através das rotas comerciais que não ofereciam segurança, estando sempre sujeitas na via terrestre a emboscadas de salteadores e na via marítima à pirataria largamente praticada. Tendo em vista estes problemas os templários criaram a apólice de seguro, para ressarcir as perdas materiais no transcurso das viagens, ao mesmo tempo em que era do interesse dos seguradores templários que nenhum dano viesse a ocorrer às mercadorias, providenciando para isso escoltas especializadas.  Estes foram os motivos que fizeram da Ordem dos Templários a primeira instituição bancária privada e independente das operações dos senhores da nobreza, até então únicos financiadores e tomadores de dinheiro. Quanto mais crescia o movimento comercial das feiras de Champagne e da Liga Hanse, tanto maior era o poder bancário dos templários, o que fazia deles os únicos senhores do sistema financeiro do norte europeu.

 Na primeira metade do século XIII, a cidade de Florença ao participar da disputa entre a Igreja de Roma e o Sacro Império Romano Germânico tomou uma posição francamente pró-papal. Com a vitória do partido pró-papal dos Guelfos, a compensação pela fidelidade logo veio aos proeminentes florentinos, que foram eleitos pelo papa como tesoureiros e coletores de impostos do Estado Pontifício. Em 1252, o florin, a moeda de ouro florentina, entrou em circulação, marcando o inicio da ascensão da mais poderosa cidade do sistema financeiro europeu da Idade Média. Os bancos florentinos tinham o nome da família que controladora do negócio, entre os nomes mais importantes estavam os Peruzzi, Buonacorsi, Accioli, Albizzo, Mosciatto Guide, Bardi, Frescobaldi etc. Os membros das famílias destas firmas tinham diversas atividades dentro e fora da companhia, atuavam em política, na área militar e nos assuntos diplomáticos, dando prestigio ao nome da família, além do que ampliavam em muita a esfera de influência familiar, por este motivo ficava difícil distinguir entre as atividades e motivações da atuação destas famílias.

Florença tinha uma poderosa elite mercantil, a qual era constituída de numerosas famílias que investiam o capital que detinham no progresso dos negócios comerciais e industriais. Nos anos a partir de 1290, duas dessas famílias, os Bardi e os Peruzzi, haviam estabelecido sucursais na Inglaterra, e se tornariam os principais banqueiros europeus trinta anos depois. Um exemplo dos negócios feitos por estes banqueiros florentinos pode ser encontrado na negociação da coroa britânica de 1299 para um empréstimo que fez com o banco comercial líder naquele período da família Frescobaldi. O contrato de empréstimo dispunha que o emprestador poderia controlar as operações da uma mina de prata pelo período de um ano, mas teria que pagar todo o custo da operação da mina. A coroa inglesa não dava nenhuma garantia da existência ou não do minério, nem a quantidade ou qualidade da prata que poderia ser extraída durante o período. Este era o típico contrato de risco, em que não havia garantia que a produção pagaria o empréstimo bancário.

Com implementação comercial e o conseqüente recrudescimento do giro monetário, somado ao fato dos venezianos e genoveses exportarem cada vez mais as moedas européias de prata para o pagamento de suas operações comerciais externas, passou a ocorrer uma escassez do metal nos reinos europeus ao final do século XIII, porquanto as minas existentes estavam se esgotando e a produção de novas moedas ficou escassa. Contava para essa escassez a prática crescente da especulação monetária, porquanto a prata que vinha do Sacro Império Romano Germânico, por exemplo, era comerciada pelos venezianos com os florentinos, os quais eram responsáveis pela cunhagem das novas moedas, obtendo seu lucro sobre a diferença entre o valor das moedas em relação ao valor de mercado da prata, além do que obtinham ainda maior lucro ainda com o estabelecimento de duas moedas paralelas; a moeda descontável para uso comum dos cidadãos e a moeda comercial para o uso comercial e dos negócios estabelecidos entre os financiadores e tomadores de dinheiro, particulares e governamentais.

Esta prática financeira florentina e veneziana aparentemente não afetava os negócios dos banqueiros templários, fosse por suas reservas em ouro e prata, fosse pelos valiosos contratos comercias que iam da exploração de novas minas a hipotecas de produção agrícolas. Contava para solidez dos negócios dos templários a notável rede de influência dos descendentes de Fulk V de Anjou, a qual dominava os negócios do eixo norte da Europa, a despeito da acirrada disputa comercial entre as casas reais francesa dos Capetos e inglesa dos Plantagenetas, iniciada com Eduardo Coração de Leão e Filipe Augusto ao final do século XII. O sucesso dos templários incomodava tanto o rei da França Filipe IV, o Belo, quanto seus banqueiros florentinos Albizzo e Mosciatto Guide. Assim, o rei francês desejoso de resolver seus graves problemas financeiros com os florentinos e os tendo como aliados processou os banqueiros templários, a fim de apoderar-se de seus lucrativos negócios e riquezas. A estratégia do rei francês para aniquilar o poder da Ordem dos Templários foi tomar posse da origem do poder, o trono de Pedro, colocando sentados nele papas 'marionetes' da coroa francesa para assim garantir não só a sobrevivência financeira da França como também, oportunisticamente, promover sua recuperação comercial. 

Florença foi sem dúvida a mais privilegiada com a perseguição sanguinária aos cavaleiros templários por toda a Europa e a consequente tomada a partir de 1307 da rede financeira templaria pela Ordem dos Cavaleiros Hospitalários, a qual fora criada para esse exato fim.  Esta ligação se sedimentou quando após a conquista de Rodes pelos Hospitalários, em 1309, a casa bancária Peruzzi foi premiada com uma sucursal na ilha. O apoio do papa francês Clemente V, homem de Filipe IV, o Belo, foi fundamental para o florescimento espetacular dos negócios dos Bardi e dos Peruzzi, basta dizer que com a mudança da sede papal para a cidade francesa de Avignon no mesmo ano de 1309, a casa bancária Bardi estabeleceu ali a sua reserva em moeda de ouro. O prestigio papal dado aos florentinos se estenderia até 1370, devido à sucessão consecutiva de papas franceses.  

Além das casas bancárias a economia florentina também se baseava na produção de luxuriantes lãs e sedas. Centenas de lojas se dedicavam a cada passo ou mais da produção têxtil, os fios eram tratados, tingidos, tecidos e finalizados para depois serem usados na confecção de vestimentas. A única concorrente neste negócio era a região de Flandres, que contava com a vantagem de comprar a lã da Inglaterra, cuja qualidade superava em muito a lã produzida na Espanha. Os negócios em Flandres estavam de tal maneira prósperos que em 1309, uma Bolsa de Negócios foi aberta em Bruges. O que causaria a cobiça dos comerciantes florentinos sobre o progresso flamengo.

Os banqueiros florentinos eram aliados dos comerciantes venezianos e Veneza manipulava o processo bancário florentino, e tanto florentinos como venezianos se relacionavam com as redes de influência de Champagne, de Anjou e do Hanse, fazendo desta relação uma rede fechada de conspiração financeira, detendo o completo domínio de um mercado em que o dinheiro era cunhado e o crédito criado. Em 1320 os venezianos exportavam a prata da Europa para o Oriente Médio e Constantinopla, 25% da prata existente nessas regiões vinha da Europa, foi estimado que mais de 100 toneladas de prata foram exportadas pelos venezianos para os sarracenos. A crescente escassez do vil metal criava um problema cada vez maior agora à Inglaterra e à Flandres, que se viam sem moedas para o pagamento de seus negócios. A moeda de prata parecia ter desaparecido, seguindo a idéia de que o domínio e a especulação progressiva de certo produto sempre reduz a produção deste produto. A bolha de especulação da prata iniciada em 1250 e que atingira a França em 1305 se aproximava de seu ponto perigoso em 1330, estando prestes a estourar.

As sucessivas ondas de fome de 1314-1317, de 1328-29 e de 1338-9 que assolaram a Europa refletiam que a política de agricultura e comércio europeu não estava funcionando devidamente. A fome abriu a porta para a pneumonia, as pragas e a peste bubônica, que fariam mais de trinta milhões de mortes, culminando o processo de despopulação da Europa iniciado em 1290. A Guerra dos Cem Anos seria desculpa para muitas coisas, sobretudo para o primeiro “crash” econômico da história da civilização ocidental.

Desde 1325, os genoveses inimigos ferrenhos dos florentinos e dos venezianos, controlavam os negócios e lucros da lã do reino de Castilha, na Espanha, logo os florentinos eram obrigados a comprar a lã da Inglaterra. A lã de origem inglesa e espanhola se constituía a base da produção de roupas da Europa, o algodão estava começando a ser produzido. Em 1229, os Bardi e os Peruzzi haviam conseguido com Eduardo I Longshanks, neto de João Sem Terra, o status de monopólio da produção e exportação da lã inglesa, o negócio foi bem até 1310, quando a produção de lã começou a declinar com o agravamento da crise aberta com perseguição à Ordem dos Templários, que desembocou na revolta da classe do baronato, causando a deposição e o assassinato de Eduardo II, genro do rei francês Filipe IV, o Belo. 

Com a ascensão de Eduardo III, filho do antecedente, ao trono da Inglaterra tudo parecia concorrer para os negócios florentinos da lã, sobretudo depois que o rei apoiara seu cunhado para o trono da Escócia em 1333. No ano de 1335, os banqueiros florentinos nada tinham para se queixar, pois tinham obtido 810% de lucro anual na soma de seus vários negócios, a prosperidade contínua faria com que no ano de 1338, Florença tivessem mais de 80 casas bancárias, que operavam por toda Europa, o negócio florentino era um sucesso, mas até quando?

Em 1337, Eduardo III, com a morte de seu tio se tornou o único herdeiro vivo da linhagem masculina direta da casa real francesa capetíngea, seguido apenas por seu irmão mais novo. Sua reivindicação ao trono da França encontrou oposição na lei Sálica, que impedia a sucessão real pela linhagem feminina, que era o caso de Eduardo III. Quando foi considerado como legitimo herdeiro do trono francês Filipe VI de Valois (filho do irmão de Filipe IV, o Belo, Carlos de Valois) Eduardo III deu início à Guerra dos Cem Anos.

Era também de profundo interesse do rei inglês unir a Inglaterra às ricas cidades flamengas (Flandres) ligadas ao comércio britânico de lãs. O que os banqueiros florentinos não contavam é que Eduardo III por causa da guerra proibisse os mercadores e banqueiros de fazerem remessas de seus lucros para o exterior. Então, os florentinos converteram seus lucros em lã e a estocaram nos monastérios da Ordem dos Cavaleiros Hospitalários, que eram seus devedores, aliados políticos e sócios no monopólio de lã. Montados na lã, os banqueiros da família Bardi propuseram a Eduardo III o boicote da venda de lã à Flandres, porquanto apesar de Eduardo III ser casado com a sobrinha do rei da França, Filipa de Hainaut (descendente de Yolanda de Flandres e Baldwin V de Hainaut), ele não conseguira que os flamengos se submetessem aos interesses da Inglaterra durante a expedição de 1338-1340.  Os florentinos, então usando disso alegaram que o boicote era uma maneira de elevar o preço da lã e do rei inglês poder fazer caixa para pagar seus débitos com os Bardi e Peruzzi, mas tudo o que os florentinos sempre quiseram era mesmo destruir a concorrência da indústria têxtil flamenga. Assim a indústria de Flandres foi boicotada, ficando sem lã em 1340, colocando um fim no nascente processo industrial centralizado nas cidades, que foi obrigado e se pulverizar em industrias familiares campesinas.

Os florentinos pareciam ter alcançado a vitória desejada sobre os flamengos, mas não esperavam a reviravolta em seus interesses que estaria por vir. Por ocasião da realização de uma negociação de cambio de 1339, o deságio da troca do florin de ouro pela moeda inglesa fora de 15%, então após o boicote de Flandres, Eduardo III contra-atacou os banqueiros florentinos e apresentou o seu novo florin inglês ao mesmo valor do florin florentino. Ora, a base da proposta do rei inglês estava no fato que venezianos e florentinos haviam subido o preço da prata a despeito da grande reserva que possuíam, manipulando o câmbio do preço do ouro em relação à prata, de forma que a prata fosse tão valiosa quanto o ouro, logo a moeda de prata inglesa valia tanto quanto o florin de ouro ao ver do monarca. Os Bardi e os Peruzzi naturalmente não aceitaram tal despropósito, a conseqüência eles jamais imaginaram: Eduardo III faltou com a promessa de pagamento da divida. Resultado: aconteceu o “crash” de 1340, dando inicio a crescente desvalorização do florin, que em cinco anos teria seu valor reduzido à metade, ocasionando a queda dos investimentos em ouro na Europa. A sobrevivência das casas bancárias Bardi e Peruzzi após 1340 somente se deu porque a notícia da decadente posição que se encontravam não circulara amplamente, mesmo assim não tardou para que a liga Hanse proibisse a entrada dos banqueiros florentinos em seus domínios comerciais. A casa bancária Bardi quebrou cinco anos após a morte de Filipe VI da França, em 1355, levando com ela os bancos dos Peruzzi e dos Accioli. Assim,  sobreviventes dos cavaleiros templários que refugiaram-se nas brumas britânicas obtiveram a sua inaudita 'vingança' sobre seus perseguidores e de lá continuariam exercendo sua influência velada e obrigatoriamente "secreta".

A estratégica aliança entre Veneza e o império do extremo oriente do cã mongol ocorreu no inicio e durante o colapso econômico que se seguiu ao ano de 1340, dando uma perspectiva positiva de grandes negócios a despeito da fragilidade do contexto econômico europeu após o default da Inglaterra. Mas, desta vez a ganância veneziana encontraria um sério oponente: o destino. 

Durante o império mongol (1230-1370) as rotas comerciais que uniam as rotas romanas às rotas da seda eram mantidas pela cavalaria mongol, e foi através da cavalaria mongol que a peste negra (bubônica) avançou pela Criméia, chegou às galés do Mar Negro, e delas à Sicília e vindo a atingir Veneza. Mas, seria Florença, o centro financeiro do século XIV, a grande vitimada. Para se ter idéia do quão  estagnados ficaram os investimentos na cidade de Florença durante o boom das casas bancárias, nenhuma das pontes que afamam e caracterizam a cidade foi construída no século XIV, todas elas pertencem ao século XIII. Esse descaso com os investimentos que trouxessem melhorias à cidade atingia também o serviço de fornecimento de água e à estrutura sanitárias, os quais eram sumamente precários. Com estas péssimas condições de saneamento básico, Florença recebeu a peste negra de braços abertos para dizimar a sua população no ano de 1346. Por quarenta anos a população florentina ficaria estagnada, em 1380 o colapso econômico florentino seria uma realidade.

Com a morte de Filipe VI de Valois, em 1350, sucedeu-lhe seu filho João II, o Bom, mas logo este teve que lutar com Carlos II de Navarra, o Mau, defensor da linhagem direta capetíngea de Filipe IV, tendo este como aliado Eduardo III. O rei francês da casa de Valois foi vencido em Pointiers, na Aquitânia, pelo jovem filho de Eduardo III, o afamado príncipe de Gales, Ricardo, mais conhecido como o Príncipe Negro. Em 1356. João II, o Bom, foi levado para Londres, depois de assinar acordos que davam maiores poderes aos ingleses sobre a França, e só pode retornar ao território francês, deixando dois de seus filhos como reféns. Enquanto Eduardo III e o Príncipe Negro estavam em suas campanhas militares, o governo era deixado nas mãos do filho mais jovem João de Gaunt, duque de Aquitânia. A economia prosperava pelo desenvolvimento do comércio da lã, criando um ciclo de prosperidade no reino.

Em 1359, João de Gaunt casou-se com a herdeira do ducado de Lancaster, que o fez um príncipe rico com mais de trinta castelos e vastas propriedades através da Inglaterra e da França. Seus domínios eram comparáveis em escala e organização a de um monarca. Todavia, enquanto Eduardo III e o Príncipe   Negro tinham o status de heróis populares pelos sucessos nos campos de batalha, João de Gaunt ficava com a espinhosa e impopular tarefa das altas taxações para patrocinar os interesses reais. Quando a peste negra chegou à Inglaterra em 1374-5 os negócios do reino sofreram um natural declínio, obrigando que João de Gaunt aumentasse ainda mais os impostos, o que causou oposição no Parlamento. Quando o Príncipe Negro faleceu em 1376, o poder de Gaunt aumentou e quando seu pai morreu no ano seguinte e o filho do Príncipe Negro, foi coroado aos dez anos como Ricardo II, João de Gaunt foi o virtual governante da Inglaterra durante a minoridade do novo rei. 

O rei da França morreu em 1364, seu filho Carlos V, o Sábio, que já fora regente e negociara o tratado de paz com a Inglaterra em 1360, assumiu o trono francês dando o início em 1374 a recuperação das perdas francesas para Inglaterra do primeiro período da Guerra dos Cem Anos. Em 1380, quando Carlos V, o Sábio, faleceu restava aos ingleses apenas Calais e parcas regiões vizinhas. O sucesso de Carlos V se deveu mais aos problemas internos da Inglaterra, como o crescente descontentamento dos camponeses e a ausência de uma liderança militar eficiente, porquanto João de Gaunt jamais pusera os pés num campo de batalha. Uma desconfiança de alguns de seus pares, que suspeitavam que Gaunt esperava apenas uma oportunidade para tomar o trono, também enfraquecia a sua liderança política, apesar de que Gaunt conhecedor das desconfianças que lhe rondavam ser deveras cuidadoso para que nunca seu nome fosse associado com a oposição ao reinado de Ricardo II. Contudo, ao completar vinte anos o rei resolveu assumir o poder e despachou João de Gaunt, em 1386, como embaixador para Espanha. Ricardo se cercou de um conselho constituído por seus protegidos da alta nobreza, mas a crise começou um ano após a partida de Gaunt. O descontentamento dos barões com as decisões do novo conselho real e a má governança estabelecida pelo rei fomentava uma crescente tensão política, que lançava a ameaça da eclosão de uma guerra civil a qualquer momento. Somente com o retorno de Gaunt à Inglaterra os ânimos se acalmaram, e o duque conseguiu com habilidade restabelecer o entendimento entre o Parlamento e o rei, dando inicio a um período de estabilidade e relativa harmonia, o que deu a Gaunt a reputação de devoção ao bem-estar do reino, o que restaurou a sua imagem pública.

Henrique de Bolingbroke, filho de João de Gaunt, não tinha o mesmo talento diplomático que o pai, e acabou se indispondo com o Ricardo II, seu amigo de infância, já que ambos nasceram em 1367. Por sua oposição política, em 1397, Henrique foi banido por dez anos da Inglaterra pelo rei, que contou com o apoio do próprio João de Gaunt para sua decisão. Quando seu pai morreu, em 1399, Henrique se revoltou com a atitude inexplicável de Ricardo II, que declarou todas as propriedades de João de Gaunt como pertencentes à coroa, tirando todos os bens que Henrique teria por direito hereditário. Por causa disso, naquele ano mesmo, Henrique Bolingbroke retornou à Inglaterra e depôs o impopular Ricardo II, e tomou o trono para si, como no passado só o fez o normando Guilherme, o Conquistador, e passou a reinar como Henrique IV da Inglaterra. Com Ricardo II findou a casa real da coroa inglesa dos Plantagenetas e com Henrique IV foi fundada a casa de Lancaster. Findava também com esta mudança um processo político que funcionara por mais de dois séculos na Inglaterra, assim como inaugurava um tempo de disputa pelo poder real, que desembocaria na Guerra das Duas Rosas.

O primeiro sintoma da mudança da direção da política econômica européia foi uma onda contra as práticas comerciais italianas: os métodos bancários venezianos foram banidos em 1401 por Martin I de Aragão; Henrique IV da Inglaterra proibiu os juros em 1403; os banqueiros genoveses foram expulsos de Flandres em 1409 e em 1410 os mercadores italianos eram expulsos de Paris. Mas, tais atitudes foram apenas pequenas batalhas comerciais perdidas, ao fim essa guerra financeira seria vencida novamente pelos florentinos na pessoa de Giovanni di Bicci de’Medici.

Giovanni di Bicci de’Medici nasceu no seio da família Bardi em 1360. Cresceria no momento posterior a falência da casa bancária Bardi, onde o desejo de recuperação do status perdido era naturalmente acalentado na família. A crise aberta após a frustrada tentativa do papa Gregório XI de experimentar um retorno do papado a Roma, em 1378, favoreceria os interesses do jovem Giovanni. O papa faleceu pouco tempo depois de sua chegada à antiga sede do pontificado, um novo papa precisava ser escolhido. Uma mobilização romana ameaça com violência se um italiano não for eleito pontífice, porquanto desde 1305 se sucediam apenas franceses no papado. Um arcebispo foi eleito, Urbano VI, oriundo do reino de Nápoles, governado por um dos braços da rede de Anjou.

 Logo a arrogância do novo papa conquistou inimigos. Então, o cardeal Roberto de Genebra, filho do Conde de Genebra, da Casa de Savoy, apesar de ter votado em Urbano, lidera uma coalizão de 30 cardeais franceses para declarar a eleição anterior inválida. Ele mesmo acaba sendo eleito papa, com o nome de Clemente VII, naquele mesmo ano. Clemente VII com restabelece a sede do papado em Avignon com o apoio dos reinos da França, Escócia, Castilha, Aragão, Navarra, Portugal, Dinamarca, Noruega, Savoy e alguns estados germânicos. Enquanto que Urbano VI permaneceu em Roma com o apoio da Inglaterra, do norte da Itália e do Sacro Império Romano Germânico. Tal divisão da cristandade foi o marco do episódio conhecido como o Grande Cisma do Ocidente.

Em resposta à restauração de Avignon como sede do pontificado, Urbano VI excomunga Clemente VII, em seguida no ano de 1381 confisca o reino de Nápoles e destrona a rainha Joana I de Anjou e o dá ao seu sobrinho Carlos Durazzo, primo em segundo grau da rainha e casado com uma sobrinha dela e de Urbano VI. Durazzo fora adotado por ela desde criança, mas por causa de sucessivos dissabores com seus parentes em Nápoles, adotara Luis II de Anjou, seu primo e neto de João II da França. Carlos Durazzo prende e mata Joana em 1382, tornando-se rei de Nápoles. Logo depois reclama para si também a coroa da Hungria, outro braço de Anjou, e acaba assassinado lá em 1386. Logo após a morte de Durazzo, seu filho ainda menor de idade Landislas foi expulso de Nápoles. Urbano VI que havia se refugiado em Genova por causa da perseguição de um ingrato Carlos Durazzo, ao saber da sua morte retorna para Roma, e ele mesmo toma a frente da defesa dos interesses do sobrinho-neto. Urbano VI morreu em conseqüência de uma queda de sua mula em 1389, para seu lugar foi eleito Bonifácio IX, membro de uma família baronial de Nápoles. Menos de um mês depois da eleição do novo papa em Roma, Clemente VII coroou Luis II de Anjou como rei de Nápoles, lhe prometendo a maioria dos Estados Pontifícios. Ao tomar conhecimento disto Bonifácio IX corou Landislas, filho de Carlos Durazzo como rei de Nápoles em 1390, no mesmo ano Luis II de Anjou tomou posse do seu reino napolitano, dando início a uma disputa com o papado de Roma que duraria uma década.

Em 1394, Clemente VII faleceu e um novo papa foi eleito em Avignon, Benedito XIII, perpetuando o cisma católico. Bonifácio IX morreria em 1404, sendo sucedido por Inocêncio VII, que despertou a ira dos gibelinos romanos que apoiavam os imperadores romano-germânicos. Seu curto papado seria marcado por violência e descontentamento, o que teria lançado suspeitas sobre a natureza de sua morte ocorrida em 1406, ele foi sucedido por Gregório XII, o qual era aparentado com Landislas, que fora excomungado apesar de todo apoio dado à manutenção de Bonifácio IX no papado. Gregório XII propõem a Benedito XIII que ambos renunciem em beneficio de uma igreja unida, apesar do rei da França Charles VI declarar sua neutralidade na disputa do papado em 1408, os papas não querem renunciar, a solução vem no Concílio de Pisa em 1409, com a eleição de um terceiro papa Alexandre V que permaneceu apenas até 1410, sendo sucedido por João XXIII. O absurdo acontecera na Igreja de Roma, três papas exerciam o papado, um em Avignon, outro em Roma e mais um em Pisa.

Luís II de Anjou aliou-se ao papa de Pisa, cidade cujo protetorado fora conquistado pelos florentinos em 1406 dos genoveses. A despeito desta aliança Luís II perdeu a batalha para Landislas em 1410, contudo seus filhos com Yolanda de Aragão reinariam em Nápoles a partir de 1417, fato que coincide com as decisões tomadas no Concílio de Constança, aonde finalmente se chegou a um consenso para ocupação do trono de Pedro de um único pontífice na pessoa do ilustre romano Martinho V. Assim, terminaram tanto o problema do reino de Nápoles dos Anjou como o Grande Cisma do Ocidente.

Ao final do concílio em maio de 1418, Martinho V deixou a beleza plácida do lago Constança, nas fronteiras da Áustria, Suíça e Baviera, e atravessando os Alpes chegou ao norte da Itália, e no caminho de volta a Roma parou em Florença. Uma viagem que normalmente durava uns quinze dias foi feita com mais vagar, mas certo foi que o novo papa permaneceu em solo florentino até 1420. Sem dúvida Martinho V tinha muito o quê conversar com os florentinos, principalmente sobre como restabelecer a prosperidade perdida da Igreja de Roma e assegurar que o saneamento nas finanças pontifícias fosse devidamente feito. Giovanni di Bicci de’Medici se tornou no transcurso deste tempo um astuto financista, em 1410 apostara todas as suas fichas no retorno do papado para Roma. Em retribuição ao seu apoio os papas passaram a fazer uso do banco Medici, além do que passou a receber as taxas dos contratos de produção agrícola e somando também aos seus bens algumas minas de alumínio. Essa aliança entre os Medici e o papado seria próspera e duradoura. Seu filho Cosimo Giovanni de’Médici herdou o que pode ser considerada uma das primeiras companhias multinacional do Ocidente, com um poderoso banco, vastos interesses comerciais e uma rede de influência que abrangia do norte da Itália à Europa.

Cosimo Medici foi patrocinado em sua escalada política pela chamada gente nova florentina, constituída basicamente de imigrantes. Rinaldo degli Albizzi promoveu o exílio de Florença de Cosimo em 1433. Não tardou um ano e Cosimo estava de volta, para depor seu rival e assumir o governo da República florentina, cargo em que permaneceria até o fim de seus dias. Cosimo fez com que Florença se tornasse o fiel da balança entre o poder de Milão e Veneza. Sua política poderosa desencorajou qualquer interferência da França ou do Sacro Império Romano Germânico ao norte da Itália. No ano de 1440, o Banco Medici, além do câmbio monetário do comércio, dos créditos pessoais e dos empréstimos governamentais, também passou a ser o coletor oficial dos impostos para a Igreja de Roma, assim como, com a cobrança de uma taxa em todas as transações comerciais entre ela e os mercadores, garantia um significativo lucro à Igreja.  Mas nem tudo foi lucro para o bem sucedido banqueiro, que fez do Banco Medici o maior do seu tempo.  O rei da França, Luís XI, assim que subiu ao trono em 1461, lançou o projeto de uma única moeda nacional, criada e controlada pela coroa. A forma mercantilista de economia nacionalista de Luis XI foi combinada com pronunciada hostilidade contra as técnicas italianas de crédito e liquidação de débitos, uma atitude que influenciaria grandemente as atitudes dos outros reinos europeus.  Cosimo morreu em 1464, aos setenta e cinco anos, deixando a herança que recebera de seu pai muitas vezes multiplicada para seu filho, Piero Cosimo de’Medici.

Piero não era um brilhante banqueiro como seu pai, mas foi suficientemente capaz para que as coisas corressem de maneira tranqüila no banco. Ele tinha uma larga visão financeira, os bons resultados de suas decisões permitiram que levantasse os longos empréstimos, alguns para vários amigos dos Medici que seu pai apoiara. De imediato a concorrência comercial se acirrou entre os mercadores, e um grande número dos mercadores envolvidos nos negócios foram levados à bancarrota. Este fato que promoveu a união dos que se oponham aos Medici. Em razão de sua frágil saúde, Piero faleceu em 1469. Seu filho Lorenzo di Piero de’Medici, com apenas vinte anos, o sucedeu tanto nos negócios como à frente do governo de Florença.

O futuro de Lorenzo estaria intimamente ligado aos humores do papado, seu período revelará os interesses pouco espirituais da Igreja de Roma, comprovado em seu comprometimento com as coisas temporais e uma crescente corrupção dos valores do cristianismo pela ganância material de seus pontífices. Tal situação respalda o movimento da Reforma, não apenas no aspecto religioso, mas suas conseqüências econômicas e políticas, quando grande parte da nobreza utilizou o movimento reformista para romper com seus compromissos econômicos e financeiros com a Igreja de Roma. O que nos permite dizer que a Reforma foi mais um movimento econômico do que religioso e que a interferência direta do papado no nascente capitalismo foi causa e efeito da Reforma. Raramente os historiadores apresentam este aspecto, cujos fatos obscuros passam em branco, como se o estudo e o ensino deste aspecto, não fosse relevante às novas gerações. Contudo, só tendo este conhecimento se pode compreender que o passado humano não é feito de fatos isolados, cujas causas são espontâneas ou motivadas por um idealismo de um mundo mais justo e benéfico para maior parte da Humanidade, em verdade se constata que as “grandes idéias” neste sentido servem apenas aos interesses ulteriores daqueles que as financiam, com o único objetivo de adquirirem mais poder financeiro e político sobre as massas ignorantes, porquanto é sempre a ignorância em qualquer um de seus aspectos que permite as várias formas de escravidão perpetrada por um ser humano sobre outro. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

X - A DISPUTA DE MERCADO


                                                         
A 3ª Cruzada seria de grande importância para o nascente processo econômico europeu em vários aspectos. Frederico I Barbarossa ao morrer afogado no rio Saleph em 1190, deixou as suas tropas sem um líder. Ricardo Coração de Leão resgatou os fundos para a sua campanha usando de todos os meios possíveis, seria capaz de vender até o reino da Inglaterra se fosse preciso. De Ricardo Coração de Leão tudo podia ser esperado, conseguira o trono inglês cedendo seus direitos a Normandia e Anjou a Filipe Augusto da França, então seu amigo de juventude e aliado. No dia de sua coroação em 1189, Ricardo proibiu aos judeus que comparecessem, mesmo assim alguns deles insistiram em ir, foram brutalmente assassinados pelos membros da corte, e a violência se estendeu causando uma mortandade na comunidade judaica, ao que mais tarde o próprio Ricardo chamou de holocausto. Apesar disto Ricardo obrigou os agiotas judeus a financiarem sua cruzada, além de ter cobrado impostos altíssimos e lançado mão de todo o tesouro deixado pelo seu pai, o qual, diga-se de passagem, foi acumulado com o dízimo de Saladino; uma taxa criada na França e na Inglaterra para patrocinar uma cruzada para livrar Jerusalém da posse de Saladino, e que Henrique II jamais usou para este fim. Com medo que Filipe Augusto viesse a tomar seu trono enquanto estivesse fora, Ricardo Coração de Leão astutamente o convidou para acompanhá-lo e deixou sua mãe como regente da Inglaterra.

Dos dez anos de seu reinado, Ricardo Coração de Leão só passou seis meses na Inglaterra, além do que nem falava a língua inglesa, porquanto fora criado na Aquitânia e freqüentava assiduamente a corte francesa. Apesar de seu perfil de caráter controvertido passou para História como um herói. Sua estátua imponente esta lá ornando a fachada do palácio de Westminster, em Londres, como se o fato dele ter perdido territórios ingleses continentais preciosos não conspurcasse sua imagem heróica. Ricardo possuía admiráveis qualidades e defeitos na mesma proporção, podia ser um mestre militar e um astuto político, mais isso não o impedia de ser um tolo em outras maneiras.Quando estava a caminho da Cruzada, passou pelo reino da Sicília, com o intuito de assegurar a influência inglesa no território, pois sua irmã, Joana, era casada com o rei normando da Sicília. Estando lá armou uma tremenda encrenca, cujo resultado foi apenas imediato e não impediu que o reino fosse parar anos depois nas mãos dos germanos. Ricardo saindo de lá empreendeu na conquista de Chipre (1191), tomando a ilha do governo bizantino. Entrementes, Filipe Augusto foi para Tiro, onde se encontrou com Leopoldo V da Áustria, que estava no comando das tropas germânicas remanescentes de Barbarossa, também se encontrou com o seu vassalo conde Conrad de Montferrat, que reclamava o trono por seu casamento com a herdeira presuntiva do reino de Jerusalém, entrando em disputa com seu herdeiro nominal, o viúvo da irmã de sua mulher, Guy de Lusignan, que era vassalo de Ricardo Coração de Leão. Após a tomada de Acre, ficou decidido que Guy de Lusignan seria o rei de Jerusalém e Conrad de Montferrat seu herdeiro. Uma decisão que não tardaria a mudar por conta do rei inglês.

Aconteceu depois, que Leopoldo V da Áustria achando que tinha o mesmo direito que Ricardo e Filipe Augusto, hasteou também sua bandeira após a conquista de Acre junto com as dos outros dois. Ricardo quando viu, rápido foi lá e arrancou a bandeira de Leopoldo. Depois da querela das bandeiras, Filipe Augusto desanimado por uma disenteria abandonou a cruzada e voltou à França, deixando para trás um indignado Ricardo Coração de Leão ressentido com o abandono do aliado. Por conta dessa atitude arrogante no Acre com Leopoldo V da Áustria, quando Ricardo estava voltando à Inglaterra, teve que se disfarçar para passar desapercebido pelo território austríaco, apesar de sua cautelosa atitude foi reconhecido pelo anel real que não tirara, e acabou prisioneiro de Leopoldo, que o entregou ao imperador Henrique VI, que sem maiores escrúpulos exigiu um fabuloso resgate da Inglaterra para soltá-lo.

Foi exatamente no Acre, que a Ordem dos Cavaleiros Hospitaleiros Teutônicos foi fundada pelos germânicos, para dar assistência médica aos peregrinos. Quando Leopoldo V da Áustria se retirou do Acre, os cavaleiros teutônicos se dirigiram para a rica cidade comercial de Veneza, onde ofereceram seus serviços para o governo veneziano, que estava envolvido com complexos problemas com as suas rotas comerciais. Problemas estes que tinham origem num passado que dera à Veneza toda sua riqueza. Veneza fora fundada por volta de 568, quando refugiados da invasão lombarda se instalaram no estuário do rio Pó.Veneza pertencera ao Império Romano do Oriente, e mesmo depois de se tornar uma República independente ao final do século IX, continuara a sofrer a influência bizantina.

Em 992, os venezianos conseguiram com o imperador bizantino Basílio II um tratado comercial de reduções excepcionais das altas taxas alfandegárias, este foi o primeiro ato que serviu de base à fortuna da República de Veneza. Quando Aleixo I Comnenus subiu ao trono e os venezianos forneceram apoio militar contra a invasão normanda da Tessalonica conseguiram privilégios ainda maiores, ficaram isentos de taxas e inspeções de mercadorias em todos os portos bizantinos, podiam negociar livremente em todo império e caso houvesse questões legais teriam forum especial para seus processos. Para usufruir desses privilégios os venezianos acorriam em grande número aos pontos comerciais do império, só em Constantinopla eram em torno de dez mil na metade do século XII. Por conta da arrogância e da insolência com que enfrentaram as ordens do imperador Manuel I Comnenus, ofendendo o orgulho bizantino, caíram em desfavor, e em 1171 o imperador mandou prender a todos os venezianos residentes no império e confiscou seus navios e bens.

A perda súbita da parceria com o Império Bizantino comprometeu deveras a continuidade do grandioso sucesso marítimo e comercial da República de Veneza. Uma situação que se agravou ainda mais com a tomada da Tessalonica pelos normandos em 1185, ao que se somou a agressividade pós-cruzadas dos navegadores mulçumanos e, sobretudo, pelo recrudescimento da pirataria nas águas adriáticas. Quando os cavaleiros teutônicos chegaram à Veneza a atividade comercial marítima estava praticamente paralisada. Veneza tinha obtido, em 1178, o controle da passagem alpina do passo de Brenner, aberta a partir de 1115 com o movimento cruzadista, que ligava a cidade de Munich, fundada em 1158 por Henrique I, o Leão, à Trento e à Verona, e desta chegava-se a Veneza. A nova passagem abrira uma linha comercial para a prata vinda da Germânia, tornando os germânicos os mais novos parceiros comerciais dos venezianos, por conta disto, a proteção oferecida pelos teutônicos era mais que bem vinda pelos mercadores venezianos, os quais estavam ansiosos para retomarem seus negócios lucrativos com o Oriente.

Em 1198, o papa Inocêncio III conclamou os lideres europeus para uma nova Cruzada, tendo como motivação o fracasso da 3ª Cruzada em retomar Jerusalém das mãos de Saladino, sultão do Egito e de Damasco. A ocasião não poderia ser mais inoportuna, tanto à Inglaterra como à França. Ricardo depois de perdoar seu irmão João Sem Terra por usurpar a regência e fazê-lo seu herdeiro, entrou em litígio com Filipe Augusto e por conta disto acabou morrendo em 1199. O novo rei inglês João Sem Terra bem que tentou, mas jamais conseguiu recuperar os territórios da Normandia e de Anjou, que acabaram integrados ao território da França. Já o rei francês Filipe Augusto estava indisposto com o papado, por conta da ordem de anulação de seu terceiro casamento dada por Inocêncio III, que interditara a França até 1200. O Sacro Império Romano-Germânico por sua vez estava contestando ainda mais o poder papal, porquanto o papa excomungara Henrique VI pelo seqüestro de Ricardo Coração de Leão, e excomungara também seu sucessor Filipe da Suábia. De forma que a chamada papal à 4ª Cruzada passou literalmente ignorada por estes governantes.

No distante reino de Jerusalém, onde mal havia sido decidido por pressão de Ricardo Coração de Leão, em abril de 1192, que Guy de Lusignan ia ser o novo rei, outro esquema fora armado mudando a disposição anterior. Ricardo obrigou Guy a comprar dele a ilha de Chipre onde seria rei e, em conseqüência disto, Guy deixou o trono de Jerusalém para o protegido de Filipe Augusto. O trono de Jerusalém foi brevemente ocupado por Conrad de Montferrat e Isabella, logo Conrad foi misteriosamente assassinado deixando sua esposa grávida. Após o nascimento de sua filha, Maria de Montferrat, Isabella de imediato se casou com Henrique II, conde de Champagne, neto de Luís VII e Eleanor da Aquitânia, e também sobrinho de Luis Filipe e Ricardo Coração de Leão. Em 1197, Isabella ficou viúva novamente e se casou com Almaric, irmão de Guy de Lusignan. Em vista deste fato somente o novo conde de Champagne, Thibaut III é que atendeu o chamado papal, em 1199, interessado em reaver os interesses no reino de Jerusalém deixado pelo irmão, mas quis o destino que falecesse em 1201, sendo então substituído na liderança da 4ª Cruzada pelo tio de Maria de Montferrat, o conde da região da Lombardia, Bonifácio de Montferrat, irmão de Conrad de Montferrat e de Renier de Montferrat, o qual fora cunhado do grande imperador bizantino Manuel I Comnenus.



Além de todas as ligações citadas, Bonifácio de Montferrat era também primo pela linha feminina de Filipe da Suábia, imperador romano-germânico desde 1196. Filipe, como outros imperadores antes dele, se casara com a filha do imperador bizantino Isaac II Angelus, que fora deposto e aprisionado pelo próprio irmão em 1195. O filho do imperador deposto, Alexius Angelus, conseguira escapar das garras do tio e fora se socorrer com o cunhado, Filipe da Suábia, através do qual teve um encontro com Bonifácio de Montferrat. Alexius Angelus fez enormes promessas ao líder da 4ª Cruzada, oferecendo como principal financiador da Cruzada o seu aliado Eurico Dandolo, dodge de Veneza. 

Bonifácio de Montferrat conseguiu o apoio do papa Inocêncio III, para auxiliar Alexius Ângelus a recuperar o trono bizantino, tendo em vista que este prometera que se fosse obtido sucesso na empreitada submeteria a Igreja Ortodoxa a Roma. Oficialmente fora informado ao papa que o ataque da Cruzada se daria às cidades de Trieste, Maglie e Zara, atendendo uma exigência do dodge de Veneza, que se tornara em verdade o virtual líder da Cruzada, e seguindo a Cruzada depois ao Egito, o que jamais veio a ocorrer. Em vez da ida ao Egito, em 1203, uma frota de navios venezianos, capazes de transportarem suprimentos, armamentos, homens e principalmente cavalos, navegou para Constantinopla, que foi conquistada em 1204. Bonifácio de Montferrat, assim que Isaac II Angelus faleceu, casou-se com sua viúva, Margareta, filha do rei Bela III da Hungria, o qual anteriormente fora casado com Agnes de Chantillon, sobrinha de Henrique I de Champagne, estando naquela época já casado com Margarida da França, irmã de Filipe Augusto. Bonifácio foi aclamado rei do novo Império Latino por seus cavaleiros, mas não permaneceu porque os venezianos consideraram que ele tinha excessivas ligações políticas, constituídas por sua rede de influência, a qual reunia poderosos bizantinos, germânicos e franceses, o que não deixava mesmo muito espaço para a supremacia da influência veneziana. Os venezianos assim colocaram em seu lugar Baldwin de Hainaut, posteriormente Conde de Flandres, casado com Maria, filha de Henrique I, Conde de Champagne e era também sobrinho de Filipe Augusto.Aléxis Ângelus ficou como imperador bizantino, e a Igreja Ortodoxa nunca se submeteu à Igreja de Roma. O Império Latino fez a fortuna de Veneza 1261, enquanto o Império do Oriente a ele sobreviveria por quase dois séculos.

Depois de perder o trono do Império Latino, Bonifácio de Montferrat fundou o Estado cruzado do reino da Tessalonica no território anteriormente ocupado pelos normandos, ficou também com a posse de Creta, que depois vendeu para os venezianos, acabou morto pelos búlgaros em 1207. Quanto aos cavaleiros teutônicos só se ouviu falar deles novamente em 1209, quando ascendeu como o grão mestre da Ordem, Hermann de Salza, cavaleiro nascido no Ducado da Saxônia, na região norte de Thuringia.

Em 1211 o rei Andrew II da Hungria, filho de Bella III pediu que Salza conduzisse as tropas teutônicas para lutar contra as tribos nômades cumans, de origem eslava que estavam invadindo o território húngaro, o que se constituía também uma ameaça ao Império Latino e logo à rede de influência constituída entre Jerusalém e Constantinopla pelos descendentes de Fulk V de Anjou. O sucesso na missão permitiu que os teutônicos estabelecessem o quartel-general na Hungria. O estreitamento da relação entre o grão mestre teutônico com o papa Gregório IX fez de Hermann de Salza o elemento de ligação do papado com imperador romano-germânico excomungado, Frederico II, esta posição permitiu que Salza promovesse junto ao imperador a idéia do seu vantajoso casamento com Yolanda de Jerusalém, e o levou a se engajar na 6ª Cruzada, na qual Frederico II negociou com sucesso Jerusalém com os mulçumanos. Por sua ação diplomática entre o papado e o imperador romano-germânico, Hermann de Salza lucrou o reconhecimento da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos no mesmo grau de privilégios que as ordens dos templários e dos hospitalários, por bula papal em 1224.

A nova situação da ordem sob poder papal desagradou Andrew II da Hungria, e aos novos barões, elevados pela participação na 5ª Cruzada ao lado de Andrew II, que se sentiam ressentidos com a presença da Ordem, o que obrigou Hermann de Salza retirar os cavaleiros teutônicos da Hungria no ano de 1225. Todavia, logo foram chamados por Konrad I de Mazovia, Duque da Polônia, para subjugarem os prussianos, um povo pagão que ocupava a costa do mar Báltico, região ambicionada pela Polônia. Konrad, no ano de 1226, concedeu o território de Chelmno para os teutônicos ocuparem até que os prussianos fossem totalmente vencidos. No mesmo ano o imperador romano-germânico Frederico II concedeu ao seu mais novo príncipe imperial, Hermann de Salza, a Prússia Oriental, região que abrangia o Golfo de Riga, no mar Báltico. Em 1236, Hermann após ter reunido a ordem teutônica à Ordem dos Irmãos de Espada da Livonia, se retirou para a vida privada em Salerno, no reino da Sicília de Frederico II, vindo a morrer logo em seguida em 1239.

 A conquista da Prússia foi uma operação militar impiedosa que durou cinqüenta anos, mas quando os prussianos estavam finalmente convertidos, os teutônicos em vez de entregarem conforme o combinado o território ao ducado polonês, fundaram o Estado Teutônico. Então, seguiu-se um povoamento sistemático, com a promoção da imigração de colonos germânicos e holandeses. Em cem anos ocupariam o território da costa báltica que iria de Pomerânia, vizinha ao Ducado da Saxônia, à região de Novgorod. Entre 1280 e 1410 foram fundadas 93 cidades, 1400 aldeias e algumas dezenas de castelos, chamados Ordensburgen, foram construídos para proteção das fronteiras do Estado com a Lituânia e a Polônia, no século XX esses castelos foram usados para escolas da elite nazista de Adolf Hitler. Enfim, o Estado Teutônico deu a Lübeck, capital da Liga Hanse, o acesso ao comércio escandinavo e à Rússia. A Constantinopla e a criação do Império Latino deram aos venezianos o domínio sobre o comércio com o Oriente.

Após a conquista de Constantinopla (1204), o Império Bizantino foi dividido em três reinos, o de Nicéia, de Trebizonda e de Empirus. Alexius Angelus foi deposto e envenenado por um parente assim que foi feito imperador. O genro daquele tio que havia deposto seu pai, que se chamava Teodoro Lascaris proclamou-se imperador de Nicéia em 1206. Theodoro veio a se casar com Maria, filha de Yolanda de Flandres e Pedro de Courtenay, numa tentativa de estabelecer a paz entre o Império Latino e o Império de Nicéia, todavia Theodoro morreu no mesmo ano de 1222, sendo sucedido pelo genro João III Ducas Vatatzes, este ficando viúvo em 1235, e casou-se com Constance Anne, filha ilegítima de Frederico II com Bianca Lanzia, para estabelecer uma aliança com o Sacro Império Romano Germânico, mas a união não produziu filhos. Foi sucedido pelo filho do primeiro casamento Theodoro II Lascaris, que no ano de 1258, teve que lutar com o irmão de Constance Anne, o qual se casara em segundas núpcias com a filha do rei de Empirus. Falecido naquele mesmo ano, Theodoro II foi sucedido pelo seu filho João IV Lascaris, o qual tinha apenas oito anos de idade, e por isso o general Miguel Paleólogo se fez regente e se proclamou co-imperador de Nicéia no ano de 1259. Miguel Paleólogo se aliou com Genova, inimiga de Veneza, promovendo um assalto inesperado à Constantinopla, que resultou na tomada da cidade no ano de 1261, e a deposição do imperador latino Baldwin II.

Mal foi restaurada Constantinopla como capital do Império Bizantino, Miguel Paleólogo mandou cegar o jovem João IV Lascaris para o inabilitar ao trono e o encerrou num castelo na costa do mar de Marmara. Por esta atitude Miguel Paleólogo jamais foi bem-quisto pelos reis europeus, que isolaram Paleólogo e seus descendentes, os quais só conseguiram estabelecer alianças matrimonias com os reinos da Bulgária e da Sérvia.

O fim do Império Latino marcou também o inicio da queda do Império Bizantino, Apesar dos Paleólogos terem sido a mais longa dinastia bizantina, teve poucos homens de valor a sua frente para conduzir o império que se viu assim condenado a uma decadência sem mais fim. Um século depois de restaurado o império bizantino não possuía mais exércitos, nem marinha, nem finanças e nem mais unidade patriótica. O império era assolado pelas revoluções: guerras civis de pretendentes contra o governo, lutas violentas entre partidários e adversários da união da Igreja Ortodoxa com a Igreja de Roma, e revoluções nas quais venezianos e genoveses se rivalizavam no comércio e nos negócios atingindo a prosperidade econômica do império.

Os Paleólogos tinham ódio aos venezianos, por isso concederam à Genova maiores favores e privilégios do que em algum dia Veneza recebera do Império Bizantino, concedendo até possessões na costa da Ásia Menor e permitindo o estabelecimento de colônias genovesas no Mar Negro. Quando Miguel Paleólogo cedeu a entrada do Bósforo, ou Chifre de Ouro, à frente de Constantinopla, permitindo que fossem construídas não só uma sólida fortaleza, mas também um porto e uma colônia em Gálata, o prestigio dos genoveses dentro do Império chegou ao clímax. Mas colocar a raposa dentro do galinheiro realmente não é uma atitude sensata, a conseqüência da entrega progressiva de todo o comércio bizantino não apenas nas mãos de genoveses, mas de venezianos também, permitiu que os latinos se apoderassem não só das riquezas do império, mas das fontes que enriqueciam o tesouro imperial, porquanto todos os grandes negócios do império eram feitos por eles. Mas, se assim o foi como os historiadores narram, isto só aconteceu devido à fraqueza governamental dos imperadores Paleólogos e pela incapacidade deles de estabelecerem uma rede de influência que trouxesse benefícios maiores ao império.

Assim ao final do século XIII estavam criadas quatro zonas do mercado europeu: de Champagne e do Hanse ao norte e de Genova e de Veneza ao Sul. Estas zonas apesar de se interagirem, também eram causa de toda sorte de disputas de comerciais às políticas, dos comerciantes aos governantes. Por outro lado ficaram definidos dois eixos comerciais europeus: a da costa mediterrânea e da costa do mar Negro ao sul e o que reunia as costas do mar Norte, mar Báltico e oceano Atlântico ao norte. Esta nova ordem econômica originou novos instrumentos e instituições financeiras, as quais moveram o poder econômico antes retido nas mãos dos governantes para as mãos dos empreendedores e financistas, os quais exerceriam cada vez mais influência política e promoveriam ações sucessivas para a liberação da legislação comercial, a fim de atender as suas exigências para um progresso econômico continuo e lucrativo. A concorrência comercial entre os eixos configurou uma escalada capitalista, causa fundamental das sérias mudanças do contexto europeu nos próximos séculos, ao financiar um notável desenvolvimento tecnológico, que capacitou os europeus a se lançarem à conquista do desconhecidos territórios além mar.



quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

IX - A ESCALADA CAPITALISTA

A transformação na maneira de pensar, decorrente de um maior conhecimento, teria sido a causa ou o efeito de uma radical mudança política e social na Europa do século XVIII?  Uma reflexão sobre essa pergunta conduz a uma nova investigação. A História não é uma ciência exata, porquanto na medida que se revelam novos fatos e novos aspectos de um determinado acontecimento um novo contexto se apresenta, transformando sua narrativa. A História é uma ciência baseada em fatos, todavia as narrativas históricas por séculos e séculos se basearam em fatos que envolviam o palco de ação dos governantes segundo seus interesses, deixando relevantes acontecimentos nos bastidores, passando assim a falsa impressão de ser a História, apenas, uma seqüência incansável de sucessivas guerras. A História tradicional raramente revela os reais motivos das ações dos governantes, colocando os historiadores do passado em delicada posição, seja pela cumplicidade destes com seus superiores, seja para dar um falso valor nacionalista e patriótico em suas narrativas. O interesse econômico quando aparece está embutido num discurso de altos ideais, capaz de motivar atos heróicos da maioria ingênua e de promover a união de muitos em uma mesma causa. A cada dia mais se comprova que questão econômica é a causa primeira de todas as guerras e geradora das transformações da sociedade humana, e, também, de maneira dramática é a única razão para a ascensão e queda das civilizações.

O cenário histórico europeu permite a constatação da relevante importância da economia no processo civilizatório humano. O aspecto populacional, por exemplo, é o fator determinante para a precariedade econômica da Europa na baixa Idade Média. Até o século V a Europa tinha uma acomodação populacional dividida entre os povos celtas, germanos e romanos. Os celtas estavam fixados na Gália (França), Galícia (norte da Espanha), na Britannia (Grã-Bretanha) e no vale do rio Pó, enquanto os germanos se fixaram às margens do rio Reno e do Rio Danúbio. Tanto os germanos quanto os celtas estavam submetidos ao Império Romano do Ocidente no inicio do século V, quando uma certa tribo nômade asiática, denominada hunos, atraída pelas riquezas do Império começou o seu movimento de pilhagem invadindo o oeste europeu, atingindo o rio Danúbio no ano de 405. As tribos germânicas em sua maioria se dedicavam à agricultura, seu preparo para defesa não atingia ¼ da população. Na medida que os Hunos avançavam os agricultores germânicos abandonavam suas terras procurando refúgio em locais mais protegidos, num movimento constante de fuga. A invasão huna desintegrou assim a relativa unidade das tribos germanas as espalhou pelos quatro cantos da Europa; godos (divididos em ostrogodos e visigodos), alanos, vândalos, suevos, francos, lombardos, borgúndios, anglos e saxões passaram a ocupar os territórios continentais celtas, forçando uma imigração deste povo para as ilhas da Irlanda e da Britânia .

A fraqueza política-econômica e militar do Império Romano do Ocidente permitiram que o povo mais forte do império se sublevasse, no caso os germanos. Ora, é preciso lembrar que as legiões romanas, nos anos que antecederam Constantino já eram praticamente formadas de germânicos, a grande maioria destes haviam se convertido ao cristianismo, razão relevante para Constantino adotar o cristianismo. Considerando este aspecto seria mais correto dizer que os germanos ocuparam a ausência de poder do Império Romano do Ocidente sobre seus territórios, descartando a idéia tradicional de uma invasão germânica.  

Por conta de novas invasões os germanos lombardos invadiram o nordeste da Itália e tomam Ravenna em 751. Carlos Magno, ao vencer os lombardos em 774, recebeu a coroa de ferro, que o tornou senhor do norte da Itália. Em vista do poder do rei franco, o papado estabeleceu a primeira aliança estratégica com um líder germânico. No dia de Natal de 800, Carlos Magno foi coroado pelo papa em Roma imperador do Ocidente, para glória da famosa dinastia Merovíngia.

 Com a morte de Carlos Magno em 814, segundo o costume franco toda fortuna paterna foi dividida igualmente entre os filhos, tendo por conseqüência a divisão do império carolíngeo. O novo rei franco passou a ter apenas um poder teórico, porquanto os príncipes governavam com autonomia os seus domínios locais, assim como os outros senhores da alta nobreza. Este costume foi a maior causa da interrupção da hegemonia franca sobre a Europa.     

Naquele final do século VIII, as tribos turco-mongólicas búlgaras também vieram ao leste europeu e acabaram por se misturarem com os eslavos do sudeste sem maiores problemas. Os búlgaros se instalam na foz do Danúbio, às margens do Mar Negro, e acabaram submetidos em 972 ao Império Bizantino. O mesmo não se daria com a chegada das tribos dos ugros que ao final do século IX, que após se fixaram no antigo território do reino dos ávaros, tomando o nome de Magiares ameaçaram a Bavária nos primeiros anos do século X, invadindo o território germânico com sua fantástica cavalaria. A despeito da superioridade tática, os ugros acabaram derrotados em 955, mas apesar disto o reino húngaro conseguiu se constituir antes do final daquele século.

Descendente de Carlos Magno, o Duque da Saxônia, Henrique, o Passarinheiro, q fundou a dinastia saxônia na Germânia, também conhecida como Primeiro Reich. Seu filho Otto I, o Grande, o sucedeu em 936, em 951 se tornou rei da Itália, em razão de uma nova aliança estabelecida pelo papado. Otto recebeu a dignidade de paladino da cristandade do papado, e foi sagrado primeiro imperador do Sacro Império Romano Germânico em 962.                                                                     

Na França, o neto de Carlos Magno, Carlos II, o Calvo, se via em apuros com as invasões vikings de 866, foi com o apoio do cunhado, Roberto, o Forte, que conseguiu se manter no poder. Roberto, o Forte, era o Conde de Tours, e também conde de Anjou, ele é o ancestral de todos os Capetos. Seu neto Hugo, o Grande, casado com a irmã de Otto I, o Grande, foi eminência parda dos últimos reis carolíngios, tal influência resultou na ida de seu filho Hugo Capeto ao trono da França, quando o último descendente carolíngeo da casa real francesa faleceu em 986. Fica evidente que a os reinos Europeus desde a sua formação constituíam uma enorme família.   

O impacto do movimento da invasão viking, apesar do barbarismo que acompanhou suas ações, veio dar um novo brilho à civilização européia. Os povos escandinavos que viviam na região nórdica da Noruega e Suécia, e ocuparam a península da Jutlândia (Dinamarca) chamavam a si mesmos de “vikings”, mas na época carolíngia foram chamados pelos europeus continentais de normandos, que quer dizer “homens do norte”. No século VIII os vikings percorriam com seus navios as costas da Europa, do mar Norte ao mar Mediterrâneo, e eram temidos piratas. Organizados em flotilhas de grandes barcos, desembarcaram nos principais rios do reino franco, exigindo polpuda soma para se retirarem. Em 886, sitiaram Paris e só mediante um enorme resgate e a autorização de saquearem a Borgonha e que eles se retiraram o cerco. Após 850, os vikings, sob o nome de varegos, ocuparam a costa européia do Mar Báltico. Construíram pequenos barcos e desceram o rio Dniéper chegaram a Kiev e de lá ao Mar Negro.Em pouco tempo eles se tornaram os intermediários comerciais entre Bizâncio e o Ocidente, entre cristãos e mulçumanos.  Em 911, os normandos conseguiram por um tratado com o rei francês a concessão da região da foz do rio Sena, dando origem ao Ducado da Normandia, e de lá onde os normandos partiram para conquistar a ilha britânica.

A importância dos vikings está no fato de não serem apenas invasores, eles também eram colonizadores, além disso, tinham talento para o comércio. Houve uma crescente demanda dos europeus continentais pelos produtos escandinavos: como o marfim das morsas, couro e peles dos animais árticos e escravos também, porque a escravatura ainda era uma prática de vários povos na Idade Média.  Por conta do comércio escandinavo, vários entrepostos costeiros, chamados “wics”, foram criados na costa norte européia. Outro fato decorrente da invasão viking foi uma mudança na estrutura social, homens livres se submeteram a seus senhores em troca de proteção, agricultores se tornaram servos e o poder militar de lideres locais aumentou grandemente, dando origem a uma nova classe de status, os cavaleiros, que passaram a servir aos nobres. A Europa Ocidental se tornou na metade do século XI uma colcha de retalho, com uma rede de comunidades entrelaçadas de principados, ducados, condados e tantos outros que constituíam os reinos frágeis sempre ameaçados pela divisão interna.

É nesse contexto convulsionado e repleto de uma nova cristandade pouco convencida da autoridade da Igreja de Roma, que o papa francês Urbano II concebe no Concílio de Clermont, em 1095, a idéia de uma peregrinação poderosa destinada a libertar Jerusalém das mãos dos infiéis mulçumanos. Surgem então as tropas armadas de cavaleiros peregrinos das famosas Cruzadas. E lá foi Godofredo de Bouillon, Duque de Lorena, chefiando a primeira Cruzada em 1096, e vira rei de Jerusalém em 1100. É preciso ressaltar que Godofredo de Bouillon e seu irmão Baldwin, ambos foram reis de Jerusalém, eram filhos da irmã de Eduardo, o Confessor, rei anglo-saxão da Inglaterra, o que faz deles algo mais que simples nobres franceses.

O filho de Baldwin, que reinou em Jerusalém como Baldwin II, não tendo herdeiros de linhagem masculina, chamou o neto do primeiro conde de Anjou, Fulk V, para se casar com sua filha Melisende.  Fulk que havia participado da cruzada em 1120 e ficará intimo dos cavaleiros templários tornando-se um dos seus grandes patrocinadores, não exitou nem um minuto frente à perspectiva de ser o novo rei de Jerusalém. Entrou em acordo com o seu antigo desafeto, o rei Henrique I da Inglaterra e fizeram o casamento de seu filho Geoffrey com a filha e herdeira do rei, Maud, que enviuvara sem-filhos de Henrique V, imperador romano-germânico. Fulk transferiu o direito ao titulo de conde de Anjou para o seu filho e partiu para Jerusalém. Em 1129, o tempo de viuvez de Fulk se encerrava ao casar-se com Melisende, herdeira do trono de Jerusalém. Decorrido um ano, nasceu desde casamento Baldwin III e depois viria Amalric I. Assim, Fulk foi rei de Jerusalém, posto que ocupou ao lado de sua esposa até 1143, que após sua morte reinou sozinha com o filho. Assim a descendência de Fulk conseguiu dois tronos; seus dois filhos reinaram em Jerusalém e seu neto subiu ao trono da Inglaterra como Henrique II, em 1154, fundando a dinastia que reuniu as casa francesa dos Capetos (Anjou) à casa da Normandia da Inglaterra. A nova casa real inglesa de Angevin ficou mais conhecida pelo nome de Plantageneta, em referência ao nome da flor amarela usada no emblema, vulgarmente conhecida como giesta (bot. Planta genesta).

A Igreja de Roma contabilizou o lucro das duas primeiras Cruzadas com o papa Inocêncio III, que revelou uma faceta de poderoso governante, dando ao exercício do poder papal um renovado significado. Inocêncio III consagrou o seu novo poder político fazendo de. Roma um Estado e dando-lhe a condição de patrimônio papal. Posteriormente expandiu o território do novo Estado com os Estados Pontifícios, que se estendiam até a costa adriática com importantes cidades como Ferrara, Bolonha, Imola, Ravenna, Ancona e Perugia. A França foi de vital apoio para seu sucesso e a Inglaterra aceitou. Ao mesmo tempo, Inocêncio III elaborou a política que deu supremacia do poder espiritual sobre o poder temporal, considerando que se os reis europeus recebiam seu poder de Deus, logicamente deveriam ser submissos ao representante de Deus na Terra, o Papa.

Os imperadores do Sacro Império Germânico não gostaram do perfil papal de Inocêncio III, não abandonando a idéia de fazer uma reforma no papado. A disputa acabou por desembocar na luta pelo controle da Itália. Dois partidos se formaram: os guelfos que apoiavam o papa e os gibelinos que apoiavam os imperadores germânicos. As conseqüências no território germânico não foram nada favoráveis. Com a morte do imperador Henrique VI, seu filho e herdeiro Frederico II tinha tenra idade, e ficando órfão de mãe, Inocêncio III se fez guardião do pequeno herdeiro. O que permitiu o papa se opor ao tio do garoto Filipe, o Duque da Suábia, que era apoiado pelos seus parentes gibelinos. Filipe acabou assassinado e os guelfos apoiaram Otto de Brunswick, filho de Henrique, o Leão, Duque da Bavária e da Saxônia e Matilda Plantageneta, irmã de Ricardo Coração de Leão, assim o papa designou Otto IV como novo imperador romano-germânico. A despeito do apoio papal, logo Otto IV investiu contra os Estados Papais e foi derrotado por Filipe Augusto da França, aliado do papa Inocêncio III. Assim mais um imperador romano-germânico acabou excomungado e deposto. Então, finalmente, Frederico II foi eleito rei da Germânia, e com apoio de Inocêncio foi coroado rei dos Romanos em 1215, sendo o novo imperador em 1220.

Todavia, Deus parece ter sempre seus próprios desígnios. O novo imperador romano-germânico não tardou a reiniciar a luta pela conquista dos Estados Pontifícios e foi naturalmente excomungado. Frederico II era ardiloso, casou-se com a herdeira do reino de Jerusalém (1225), e logo se embrenhou numa Cruzada, não como guerreiro, porquanto era excomungado, mas como diplomata. Foi tão bom diplomata que negociou com os mulçumanos um tratado que lhe daria a posse de Jerusalém por dez anos, foi coroado rei de Jerusalém com sua esposa, em 1229. Mas, seu filho, Conrado, ao nascer o deixou viúvo, então seu filho se tornou o legitimo pretendente ao trono. Como tinha severa oposição política em Jerusalém, Frederico II constituiu como seu vice-rei John de Ibelin, Lorde de Beirut, filho do cruzado Balian de Ibelin. Jerusalém foi perdida para os mulçumanos em 1244 e passadas algumas décadas e o reino de Jerusalém teria seu fim, apesar disto o titulo de rei de Jerusalém sobreviveu às reviravoltas históricas, sendo atualmente reclamado por Juan Carlos, rei da Espanha. 

As Cruzadas, como visto, atenderam ao objetivo do papado de reunir os relutantes reis cristãos europeus em torno de um objetivo comum, que ao mesmo tempo fortalecesse o poder o combalido poder da Igreja de Roma e contribui enormemente para fortalecer o poder papal. Mas, ainda, não era poder suficiente. Com base na ameaça da heresia para a cristandade, em 1233 foi estabelecida a Inquisição, que ampliou o poder papal às alturas. É exatamente esta ampliação do poder pontifício sobre os reinos europeus que conquistou inimigos declarados ou ocultos à Igreja de Roma, para os quais as idéias luteranas foram mais que bem-vindas.

É neste cenário conturbado das Cruzadas que desponta um tempo de desenvolvimento econômico europeu promovido por Henrique I, Conde de Champagne, o qual recebeu a justa alcunha de “o Liberal”. Uma rede de influência poderosa assomada a situação geográfica privilegiada deram ao Conde de Champagne as condições perfeitas para desenvolver o primeiro foco da economia capitalista da Idade Média: as feiras de Champagne. Com sabedoria o Conde de Champagne organizou a parte administrativa de seu condado de maneira eficiente, que lhe permitiu exercer um governo pacifico sobre a pequena nobreza, que o ajudava a manter a segurança do condado. Ele reuniu em torno de si dois mil vassalos, o que por si só já o tornava um nobre poderoso na região.

Os relatos históricos nos levam a pensar que as feiras de Champagne foi um fenômeno de atividade econômica totalmente espontânea, o que não foi verdade. Foi, sim, um evento econômico muito bem organizado e devidamente planejado e administrado pelo Conde de Champagne e sua rede. Henrique em sendo neto da filha do rei da Inglaterra, irmão de outro e casado com a filha do rei França de quem a irmã é esposa, não é um sujeito qualquer, tem um vasto poder atrás de sua pessoa, um poder que fez passar as feiras de Champagne para História.  

O casamento do Conde de Champagne no ano de 1164 com Maria, filha mais velha de Eleanor de Aquitânia com Luís VII da França, de certo deu ainda mais brilho as Feiras de Champagne, além de poder contar também com os favores do rei da Inglaterra, segundo marido de Eleanor de Aquitânia, e que era também duque da Normandia. Se não houvesse esta rede de influência não seria possível o sucesso das feiras de Champagne. Tal rede dava ao condado de Henrique I condições privilegiadas, que ofereciam aos mercadores um campo profícuo aos negócios, algo raro em uma Europa sempre sacudida pelas disputas familiares da nobreza. Para Champagne vinham mercadorias de todas as partes; lã, linho, peles e roupas do norte, especiarias, seda, drogas e muito mais, se negociava as safras agrícolas e animais, as produções artesanais de todos os tipos. Em vista do sucesso das feiras de Champagne, o Conde Henrique I deu maiores prerrogativas e extendeu a liberdade às cidades, o que era impensável até então.

By Bia Botana

As feiras de Champagne podem ser consideradas a primeira manifestação da economia capitalista no Ocidente. Por conta da necessidade de cambio entre as moedas mesas de câmbio começaram a fazer parte das feiras, a necessidade também fez surgir as cartas de crédito e de pagamento futuro, porquanto não era possível carregar-se um volume muito grande de dinheiro de um lado para outro do continente europeu. Entre aqueles que lidavam com a atividade financeira estavam os judeus, os quais podiam emprestar dinheiro a juros, e os italianos que não podiam emprestar dinheiro a juros por proibição da Igreja de Roma, e no meio dos dois estavam os cavaleiros templários, que criaram outras maneiras de empréstimo: como a cobrança de taxa de risco, o seguro de perda e o empréstimo por produção, método que deu origem a um nascente sistema bancário. É preciso não esquecer da intima ligação da Ordem dos Templários com os Plantagenetas e destes com o Conde de Champagne, todos pertencentes à mesma rede de influência.


 
1. Londres  2. Paris  3. Genova  4. Bruges  5. Amsterdã  6. Colônia  7. Augsburgo  8. Basiléia  9. Veneza 10.  Florença  11.  Roma  12.  Lübeck  13. Brunswick  14. Nurembergue 15.  Constantinopla 16.  Acre     !7.  Riga  18. Kiev 19. Novgorod. 
Rotas Terrestres e Rotas Marítimas. 
    
Henrique, o Leão, Duque da Saxônia e da Bavária também logo se ligaria à poderosa rede de influência do Conde de Champagne. Em 1156, Henrique era detentor de um dos mais vastos territórios da Europa continental: a fronteira ao Norte abrangia as costas marítimas do mar Norte e do mar Bálticos, fazendo fronteira com península da Jutlândia (Dinamarca); ao Sul a fronteira alpina italiana; a Leste o reino da Boemia e a Oeste o ducado de Lorena, a Alsácia e a Borgonha. O mais estratégico era a situação geográfica do seu território, o qual cortava o continente de norte a sul e era passagem para o leste das terras costeiras do mar Báltico, onde os vikings varegos haviam estabelecido uma rota comercial pelo rio Dieper, passando por Novgorod, Kiev e chegava-se a Constantinopla, as mercadorias vindas de Constantinopla eram comercializadas pela rota marítima do Báltico ao mar Norte. Com o desenvolvimento comercial trazido pelas feiras de Champagne, duas rotas comerciais foram implementadas; Uma vinha da região mediterrânea da cidade de Arles e subia o rio Rodano até atingir a nascente do rio Sena, seguindo até a foz no canal da Mancha no território do Ducado da Normandia. Outra vinha da cidade de Pavia na Lombardia, atravessava a passagem alpina do passo Grande São Bernardo, chegando a Genebra o caminho se bifurcava ou se ia para Paris ou pegava-se o caminho pelo rio Reno até o canal da Mancha, passando-se pelo território do ducado de Lorena, fronteiriço com o ducado da Saxônia. Após a morte do duque de Lorena, Godofredo de Bouillon, em 1100, o ducado de Lorena fora dividido em ducado da Alta Lorena, na região da Alsácia, e no ducado da Baixa Lorena, que corresponde à região nos dias atuais à Bélgica e Holanda, e em 1192 a Baixa Lorena adotou o nome de ducado de Brabant, que junto com o ducado de Flandres ocuparia relevante importância comercial.

Toda esta questão geográfica será determinante para o desenvolvimento comercial que passa a ocorrer no norte da Europa a partir das feiras de Champagne. Em pouco tempo, na costa do condado de Flandres, região fronteiriça da Baixa Lorena, a cidade portuária de Bruges adquiriu grande importância econômica. Bruges anteriormente fora muito utilizada pelos normandos, porquanto além de ter um porto muito bem protegido era também bem próximo da costa inglesa. O crescente interesse comercial da Inglaterra com pela região contou para o casamento de William, o Conquistador, com Matilda de Flandres, pelo mesmo motivo o filho deles Henrique I da Inglaterra se casou em segundas núpcias com Adela, filha do duque da Baixa Lorena em 1121, todavia a união foi sem filhos, não produzindo o efeito desejado. Mas outra ligação se mostraria vantajosa, o casamento no ano de 1158 de Henrique, o Leão, com a pequenina Matilda (1156-1189), filha de Henrique II da Inglaterra e Eleanor da Aquitânia, irmã de Ricardo Coração de Leão. Após o acordo matrimonial o duque da Saxônia fundou a cidade portuária de Lübeck. Este ato o marcou do inicio das atividades de uma poderosa rede de influência comercial européia, que recebeu o nome de Liga Hanseática ou Liga Hanse.

A Liga Hanseática associava as cidades de importância comercial que estavam localizadas nas rotas comerciais setentrionais, as cidades da liga gozavam de privilégios que lhe davam meios de atuação poderosos, como as franquias comerciais, que viriam a se irradiar da Inglaterra até a Rússia. A sociedade também trabalhava para conseguir privilégios para os seus membros. A História apresenta um curioso exemplo da atuação da rede, ao descrever como um mercador de Colônia tentou convencer Henrique II da Inglaterra, do quanto lucraria com os direitos de privilégios nos negócios em 1157. É difícil acreditar que Henrique II precisasse ser convencido disto, todavia não se pode desconsiderar a possibilidade de ter sido este desconhecido mercador o responsável por ter mostrado ao rei o quanto seria lucrativo o casamento de uma de suas filhas com o duque da Saxônia e da Bavária.

Quis o destino que os interesses ulteriores ingleses fossem contrariados pelos seus adversários do momento. A prosperidade da Saxônia e da Bavária chamara a atenção do imperador romano-germânico, que não tinha interesse no crescimento do poder dos ducados da Saxônia e da Bavária. Em 1182, após ardis legais justificaram que Frederico I Barba Roxa entrasse com as tropas adentro da Bavária e da Saxônia e não restou outra saída ao duque da Saxônia além de fugir para a casa do sogro com sua família. Ele tentou retornar para uma reconquista em 1185, mas voltou a se exilar na Inglaterra em 1188, no ano seguinte morreram sua esposa Matilda e seu protetor o rei Henrique II. Naquele mesmo ano, Henrique, o Leão, aproveita a ausência de Barbarossa, que fora o primeiro a partir para a 3ª Cruzada, e consegue reconquistar ao menos a sua amada cidade de Brunswick, que era a capital do seu ducado. Sem maiores sucessos em sua empreitada, Henrique, o Leão, apenas como duque de Brunswick veio a falecer em 1192. Mas, sua rede de influência sairia fortalecida, sua filha Gertrude da Baviera, era casada com o rei Canuto IV da Dinamarca, dos quatro filhos que teve com Matilde só dois estavam vivos: Henrique I Palatine, Conde de Rhein até 1227 e Otto, que veio a ser Otto IV, imperador romano-germânico em 1209, o favoreceu amplamente a Liga Hanseática.

Todo esse novo contexto do mercado comercial europeu ainda sofreria mais mudanças com a ampliação da influência da República de Veneza, que deu origem a mais uma rede de influência comandada pelos venezianos e posteriormente pelos florentinos, que traria novos aspectos à economia e também às relações comerciais, estabelecendo novas bases para o processo econômico europeu.

 Esta mudança econômica na Europa traria também uma profunda mudança cultural, porquanto na medida em que a população européia enriquecia e abandonava seu estado precário de pobreza perene, tendo acesso cada vez mais a bens materiais, adquiria também mais conhecimento intelectual, capaz de alargar os horizontes e fazer surtir uma consciência mais profunda dos europeus em relação ao mundo, os levando ao questionamento da ordem estabelecida, um questionamento que só seria bem-vindo se viesse de encontro aos interesses da nascente classe capitalista, que menos hipócrita que a classe eclesiástica, deixaria claro que se encarregaria de financiar as novas idéias, desde que estas dessem vantajosos lucros.